quinta-feira, 18 de agosto de 2011

As aventuras de Morena

Com uma trouxa de roupa na cabeça, os joelhos gastos, as juntas duras, olhou para cima para contar quanto ainda lhe faltava para chegar no topo do morro e alcañçar, finalmente, o seu bairro. A visão daquela escadaria imensa, que aprecia não ter fim, lhe desanimou e ela preferiu seguir cabisbaixa. Não havia sentindo em parar. Para onde quer que olhasse só via escada, lixo e céu azul. Seu bico de papagaio havia paralisado seu quadril e cada passo lhe custava um esforço enorme. Mas resolveu seguir, não era isso que fazia há cinquenta anos, seguia a vida? Fechou os olhos por um momento e as lembranças dos tempos em que a vida a seguiam lhe encharcaram as faces de lágrimas. Já não podia mais aguentar e sentou um pouco para descansar. E começou a se lembrar de todas as estórias que ouviu sobre si mesma e as que ela própria havia guardado no coração.




Ela nasceu num dia de céu azul e nuvens bem brancas de um verão qualquer, em pleno carnaval. Seu nascimento se confundiu então com a festa de rua e todo aniversário parecia que o bairro todo comemorava a sua chegada. Não era nem branca, nem negra, sua pele era de cor de avelã e por isso lhe batizaram de Morena. Não tendo tempo de chegar até o hospital pela confusão do carnaval, a mãe lhe teve no meio da sala, sob o olhar vigilante do avô e as mãos cuidadosas da avó. Daí em diante sua vida parecia ser uma eterna aventura. Corria o tempo todo de um lado para o outro. Seu bairro, pequeno e cercado de escadas tortas, se localizava no alto do morro e lhe parecia enorme, grande o suficiente para abrigar o mundo. Seu Clark do mercado era americano, Seu Olivier da quintanda era francês, Seu Manuel da padaria, português, Seu Juan do açougue, espanhol e Seu Zé do bar, brasileiríssimo.E era justo no bar que todos se reuniam nas sextas feiras à noite, para beber e relembrar histórias de outra vida. E foi assim que aprendeu sobre o mundo, seus costumes e línguas. Aprendeu ainda palavras soltas de outras línguas. Quando se cansava, deixava a mãe e o namorado daquele dia e saía montada em sua bicicleta e em compainha dos amigos para explorar e encontrar aventuras. E toda sua meninice foi assim, sua vida se resumia as pessoas e coisas que compunham seu bairro. Na sua adolescência as coisas começaram a mudar por ali, ela própria havia começado a mudar. Seus companheiros de aventura a haviam abandonado para caçar fora dos limites do bairro e trouxeram para lá coisas que, pela reação deles, não parecia ser bom. Seu avô batizou a novidade de droga e a proibiu de andar com esses rapazes ou usar a tal droga. Mesmo que não a tivesse proibido, não usaria, para ficar abestalhada como eles? O que eles viam na idiotice? Um ano mais tarde, quase todos os seus amigos haviam se rendido às drogas. Apenas um não usava, mas convidava a todos para provarem, de graça, se fosse a primeira vez. Seu avô, o chamou de traficante e, na escola, perguntou a professora o que aquilo significava. Assustada, achou que era a pior profissão do mundo e foi ter com Geninho, para lhe abrir os olhos da besteira que estava fazendo. Quando chegou na casa de Geninho, ele estava sozinho. A mãe o havia abandonado quando tinha seis anos, para seguir um espanhol, de nome Estebán, por quem havia se apaixonado. Seus avós se encarregaram de criá-lo, mas faleceram no ano passado; o avô, que trabalhava na mina, foi engolido por uma máquina de moer pedra para achar tesouros e a avó, morreu quando soube da notícia, seu coração partiu. Desde então Geninho havia ficado sozinho e não gostando de trabalhar para não morrer como seu avô, optou por um trabalho mais leve, entretanto, bem mais perigoso e vergonhoso, tornou-se traficante. Geninho lhe olhou com olhos de cachorro quando vê cadela no cio. Ela se manteve a uma certa distância para conseguir se fazer ouvir. Sentia medo, mas não ousava baixar os olhos, nem se desgrudar das palvras que saltavam de sua cabeça para sua boca. Seu suór frio ia ficando pegajoso quanto mais respirava aquele ar contaminado daquele odor acre de droga. Quando terminou de abrir os olhos sobre a bobagem que estava cometendo, Geninho foi duro e seco, como sua aparência, lhe disse apenas que ela não era a mãe dele, que se tivesse a ousadia de ir apra sua casa proferir desaforos, seria encontrada morta numa vala, e suspendeu a camisa para lhe provar que não estava de brincadeira. Morena viu pela primeira vez na vida, uma arma, que Geninho chamou de três oitão. Saiu com as pernas bambas andando em passos compassados, até que quando estava longe do olhar ameaçador do traficante, saiu correndo, até que sentiu seu medo se desfazer em cansaço e parou. Decidiu que não se meteria mais na vida de quem quer que fosse, por melhor ou pior que conhecesse a pessoa. Durante uma semana se escondeu em casa, receosa de ruzar novamente com Geninho. Mas, como não se pode fugir do destino, ainda mais num bairro tão pequeno.... Um tempo depois, quando já não se lembrava mais da estória, saiu para dar um passeio a pé pelo bairro, quando viu uma figura trôpega vir em sua direção. Era Geninho, muito bêbado. Disse-lhe que ela estava certa, que aquilo não era vida para ele, que aquilo era a própria morte. Acrescentou que havia matado o primeiro rival, que era a primeira vez que havia usado a arma, por sorte, havia se lembrado de carregá-la. Mas depois que se mata um, que se toma o ponto de outro, a estória vira uma questão de honra, vida e morte. Que seu porre era fruto da consciência que Morena lhe havia implantado e que estava indo buscá-la, porque havia decidido, precisava de uma mulher como ela ao lado. E a partir daí, Morena já não o escutava, correu o quanto pode, mas de tanto medo, saiu tropeçando nas pedras, nas calçadas irregulares, até que sentiu o peso do corpo do home cair sobre o dela. Era uma luta mesclada de sangue de um morto qualquer, dor, lágrimas, murros e pontapés. Até que seu sangue começou a escorrer primeiro da face, depois de suas partes íntimas, sentiu uma dor lascinante lhe furando o ventre e transformou a dor em mordidas, arranhões e novos pontapés. Quando conseguiu se desvencilhar do homem, voltou a correr com o vestido aos trapos. Ouvindo sua voz ao fundo gritando ente sorrisos, que ela era linda, a mulher mais maravihosa que já conhecera, era bela e forte.




Nos dias seguintes foi sentindo um calor lhe subir por ente as pernas cada vez que pensava no traficante. Mas não era mulher de malandro, não iria atrás dele. Mas não precisou fazê-lo, Geninho veio até sua porta, pedir aos avós que lhe permitissem namorar a neta - já que sua mãe também havia partido para São Paulo, para tentar melhor sorte na cidade grande. Incrédula, Morena esperou a negativa, porém essa nunca chegou. E começaram a namorar. De tanto namorar, Morena engravidou em menos de um mês. Geninho lhe pediu que abortasse, traficante não podia ser pai de família. Entretanto, Morena não lhe deu ouvidos. Sonhava em ser mãe e seguiu com a gravidez. Quando já estava com oito meses, Geninho não viu outra alternativa a não ser partir para um trabalho formal e deixar a bandidagem. E assim o fez. Loureno nasceu marrom claro. Tinha as feições do pai e o temperamento da mãe.




Seguiu a infância exatamente como a mãe. Correndo atrás de aventuras pelo bairro. A mãe o acompanhava ao longe, como fizera sua própria mãe. No dia 02 de fevereiro, dia da festa de Yemanjá organizada pelos moradores do bairro, quando as famílias iam juntas reunir-se para orar e deixar os presentes para a Rainha do Mar, Morena se arrumava e arrumava o menino para a festa quando ouviu batidas na porta, que se tornavam cada vez mais violentas. Antes que pudesse segurá-lo Lourenço avançou apra a porta e bateu nela também, achou que alguém brincava com ele, até que a porta veio abaixo, Lourenço correu para os braços do pai, que ao ver os homens o jogou no chão violentamente, antes de cair ele mesmo, violentamente, no chão. Geninho morreu no ato, após receber treze tiros de homens, que Morena só pode descrever para a polícia que chegou apenas após o enterro, como jovens drogados.




Morena então se viu mãe solteira. E teve que deixar os limites antes tão seguros do bairro para rumar para a cidade em busca de emprego. Quando viu aquelas escadas tortas, as ladeiras remendadas, a infinidade de nuvens no céu, enxugou com as lágrimas as lembranças de estar num vale perdido, fincado na paz roubada. Optou por descer a ladeira e se divertiu com o próprio rebolado. A cidade era uma lástima. Gente correndo, se atropelando, sem se olhar nos olhos. Ninguém dava atenção à ninguém. Todos no ônibus faziam contato apenas com um aparelho que lhe tapava os ouviso, como se assim pudessem silenciar os sons externos. Os muitos carros buzinavam tanto, que pareciam, guisos estridentes de impaciência. Se segurou nas pernas para não se deixar levar por aquele tormento frenético e sentindo que as forças lhe faltavam tirou os sapatos que lhe apertavam os dedos e lhe desequilibravam para buscar a firme sustentação do chão. MAs este também termia com o passar os ônibus e caminhões. Apertou forte os olhos e se convenceu de que partia para uma nova aventura. E foi assim, imbuida do espírito de caçadora que encontrou um supermercado e decidiu entrar. Conseguiu empregar-se como caixa, nesse mesmo hipermercado. Depois de alguns meses, as aventuras cederam espaço para o marasmo. A cidade não lhe causava mais espanto ou surpresa. Trabalhava muito, ganhava pouco. Teve que conter-se para não entrar na insatisfação permanente (e justificadas) de suas colegas de trabalho. Estava claro porquê seu ex companheiro havia optado pela bandidagem. Porém cada vez que saía não tinha desejo de voltar ali, nem mesmo pelo seu filho e fazia cada vez mais hora extra.




Um dia, numa de suas idas e vindas pelas ladeiras e escadas do bairro, conheceu Roberto. O rapaz lhe pareceu muito mais novo que ela, mas àquela altura já fazia dez anos que o pai do seu filho havia partido e pensou que não lhe faria mal ofertar-se esse consolo. Roberto era caminhoneiro e fazia entregas para a quintanda, para o açougue e para o supermercado. O francês, o americano e o português haviam fechado um acordo, que eles batizaram de euroamérica e, por isso, contrataram os serviços de Roberto. Os estrangeiros já estavam tão senis que não tinham mais disposição de subir e descer as ladeiras e escadas do bairro e desonfiavam que os próprios filhos lhe surrupiavam. Então, uniram-se em prol do bem comum. Roberto era um touro na cama, mas tinha um fraco pelo álcool. Quando bebia, quebrava a casa quase toda, os poucos móveis e louça. Morena não ligou muito para isso, até que o homem começou a lhe pegar também. Foi aceitando os golpes, como fardo do destino, até que ele quis pegar seu filho. Nesse dia descobriu-se grávida de outro rebento e cega de vingança. Lourenço, muito mais fraco e mirrado que Roberto havia desmaiado com o primeiro soco, mas o caminhoneiro insistia em lhe dar chutes, como para ter certeza de que estava desmaiado. Morena, com precisão cirúrgica lhe cravou a faca de cortar carnes nas costas e o homem tombou no chão. Tentou erguer-0se, a mulher lhe tirou a faca, lhe cravou no peito.




Morena disse mais tarde a todos que Roberto havia se matado. Ninguém lhe fez perguntas, apenas aceitaram a estória. Afinal, a paz reinava novamente no bairro, sem os gritos horripilantes que vinham da cas dela toda sexta feira. Lourenço partiu para a vida, nãos em antes, jogar na cara da mãe que jamais a perdoaria por elvar para casa tal brutamontes e por não ter previsto as consequências. Morena ouviu calada, cabisbaixa. Chorou por uma semana inteira e quando o novo rebento chegou já estava com 44 anos e o rebento chegou meio vivo, meio morto. Mas tornou-se uma mulher muita bonita, que ela batizou de Esther. A filha se mudou para outro bairro. Dizia não aguentar aquele mundo pequeno em que a mãe vivia e detestava a pobreza, faria dinheiro não importava como. A menina havia nascido para os luxos, para as regalias, não para o comedimento. Tampouco ahvia nascido para os homens, só gostava de mulheres. E Morena aceitou isso, sem questionar ou se irritar. Pela filha soube que Lourenço se mudou da Bahia para morar no interior, no coração das Minas, foi buscar novas aventuras. Esther, por sua vez, abriu um salão de beleza, que ela chamou de Estrela. Frente a condição da mãe, a filha era realmente rica.




Morena não aceitava ajuda de ninguém. Havia criado os dois filhos sozinha, com o dinheiro que ganhava e, mesmo agora, que havia sido afastada por uma doença crônica incurável, que a tornava imprestável até para as habilidades domésticas, que os médicos batizaram de LER/DORT, provavelmente pela dor que gerava nos iletrados. Mesmo agora, não queria esmolas, manteria a dignidade. Começou então a passar roupa nas casas de Madame. Como preferia trabalhar em casa, levava as roupas na cabeça para casa, para devolvê-las no dia seguinte. Tinha suas razões para deixar o bairro, mas nenhuma para retornar a ele. As pessoas que amara já não pertenciam a esse mundo. Os filhos eram donos de outros mundos, agora. A Ler/DORT lhe havia tirado parte do movimento dos braços, dos joelhos e secado para sempre sua lombar. Preferia morrer só, do que aventurar-se com um outro homem. Os que passaram em sua vida foram o suficiente para lhe partir o coração. Quando esse pensamento lhe chegou a cabeça, o vento balançous eu corpo, como se o embalasse e desatou o nó de sua trouxa. Morena levou uma de suas mãos à trouxa e a outra para o coração. Sentiu ele partir-se. Havia aguentado o que podia. E seu rosto se deformou num sorriso, no mesmo instante que as roupas coloridas se ergueram em valsa à maestria do vento e bailaram sobre ela e em volta dela. Quando seu corpo caiu para trás, ainda teve tempo de ver o céu rosa - amarelado. Partia para mais uma aventura.






Um comentário:

Cris disse...

Amiga,
seus contos, como sempre bem tristes, mas de uma poesia encantadora.Adoros suas estórias.
Beijos