terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Estrangeira


Curioso como todo verão sou estrangeira na Bahia, minha terra. Não falo “baianês”, mas costumo usar os jargões tão típicos da terra, como “ôxe”, “vixe”, entre outros, assim como os hábitos locais, como que comer bolo e biscoitos dentro do café, feijão com farinha e banana, coisas tão tradicionais daqui. Mas, a cada esquina, nas ruas do Centro Histórico, Comércio e/ou Barra (os centros turísticos de Salvador), eu sou gringa.

Quando mais nova, gostava de não pertencer a tudo aquilo, que considerava um pouco brega e tão distante do que queria para mim, mas agora, que, por opção, decidi permanecer na Bahia, apesar dos pesares, como explicar isto?!

Quando vou para o exterior, sou nitidamente de outro país, ou seja, estrangeira e, quando estou na Bahia, também sou estrangeira?! Assim, comecei a questionar a minha própria identidade.

Li algumas coisas sobre identidade, inclusive sobre identidade digital, já que minha mãe trabalha com isto! E, estranhamente, não pareço encontrar minha identidade aqui. Já ouvi de uma facilitadora de Biodança, que existe em cada um de nós a necessidade de ter identidade e que olhar no olho do outro e reconhecê-lo é fundamental. Já ouvi de um policial, que ter um número de identidade que me identifique, me torna gente e não escória...e, conseqüentemente, fácil de ser identificada. Mas creio que, como muitos que conheço, não encontrei aqui minha identidade. Sempre que volto para Salvador após uma viagem ao exterior, sinto falta de coisas simples, que vejo como tão características daqui, como, taxistas que lhe atendem aos gracejos, com um palito entre os dentes, dizendo “good morning, minha gringa, táxi?!”, ou de ouvir nas ruas. “vai, amor dos outros, mas volte pra cá, pra alegrar meus olhos”, o Solar do Unhão, o pôr-do-sol, no Farol, sair para caminhar, encontrar alguém conhecido e tomar uma “gelada” para comemorar o encontro e tantas outras coisas que só vi e só fiz aqui. Mas, mesmo isto tudo, me faz ter uma sensação de ser estrangeira em meu próprio Estado.

Não importa a cidade que vá, no Rio, em São Paulo, em BH, Fortaleza, Aracaju..., sou de qualquer lugar, nunca da Bahia. Já ouvi que sou muito branca, que tenho pouca bunda, que não falo baianês e tantos outros, que me sinto um pouco confusa, às vezes, sobre o lugar que pertenço.

Só fico feliz mesmo porque criei identidade entre meus amigos que mesclam culturas, sotaques e nacionalidades, mas olhar nos olhos deles e ser reconhecida e, melhor ainda, ser compreendida, me faz estar segura, que sou Paola Guimarães de Andrade, nascida e criada em Salvador, mesmo que toda vez que entre numa loja falando em bom português: “ bom dia, senhor, será que o sr poderia me ajudar?” – escute – “ bonjour”, “good morning”, “bonna sera”, “buenos dias” – começo a achar que isto não passa do sonho de muitos baianos carentes, de serem felizes no estrangeiro, ganhando dinheiro suficiente para “esfregar na cara do sacana, que pode viajar mais Johnny, no fim do mês, e ficar no carro, esperando no ar condicionado apenas uma hora de relógio por Dona Zezé, porque no bolso têm dinheiro de sobra para esbanjar no ar, no acarajé com cerveja, nas roupas ou no que for!” ..... Enfim, acho que tudo não passa da necessidade do outro de ser reconhecido como negro, bonito, inteligente, de nome..., com identidade número..., por todas as brancas dentro e fora da comunidade e ter tudo o que os brancos que moram nos arranha-céus têm, para deixar de ser “perrapado”!

2 comentários:

Cris disse...

Essa questao de se sentir estrangeiro no próprio país, estado ou cidade é cruel mesmo. Engracado que muita gente se sente assim na terra que é famosa por acolher bem as pessoas. Parece que nossa terrinha tem de aprender a acolher os nossos primeiro, hein...Vc chegou a ler esse meu post? http://soltandoosverbos.blogspot.com/2008_06_01_archive.html. De uma olhada nos comentários... beijos

anaÊ disse...

Trabalhar 3 anos no Pelourinho, passar todos os dias na mesma esquina e ouvir do mesmo cara uma oferta para "Morro de São Paulo" com falso sotaque espaninglês não era nada simples.

Dias ria-me, dias irritava-me, mas independente do meu humor, há sem dúvidas uma situação econômica e cultura decadente de uma população.

Coisas do capital econômico, que influencia diretamente o capital financeiro e especulativo, e tem conequêncicas (já sem tremas!)no capital simbólico...

Ai... as limitações da vida...

Mas o fato é que me incomodo menos atualmente, embora me perguntem sempre: "Você é bainana mesmo?"

cheiro