domingo, 5 de dezembro de 2010

O Caminho das Flores





Laura era uma mulher como poucas. Aos sessenta anos já havia passado por todas as agruras da vida sem desmoronar. Vira seu pai ir para o céu ainda menina. Aos cinqüenta, foi a vez de sua mãe ir embora e aos cinqüenta e cinco, seu marido entrara em colapso nervoso, ruindo diante da perda de seus pais, num acidente de carro. Viu-se, então, na perspectiva de cuidadora, dedicando-se ao esposo quase que todos os momentos de seu dia. Mas, Laura, insatisfeita com a possibilidade de passar o resto da vida sem ser reconhecida, resolveu investir em si mesma. Era jovem, bonita, inteligente e saudável. Foi com tamanha determinação agarrar o tão sonhado reconhecimento, que cinco anos mais tarde ele chegou. Tornara-se gerente geral de sua empresa. Trabalhava dez horas por dia, e, quando chegava em casa cuidava do marido, da casa, e ainda, quando tinha tempo, dava assistência a filha. Sentia-se no topo do mundo, ela havia logrado ser boa em todos os aspectos de sua vida.



Quanto mais problemas tinha a resolver, mais se sentia energizada. E passou a acordar às quatro da manhã para continuar freqüentando a academia e, com isto, ter mais energia para enfrentar a tudo e a todos. Mas depois de um ano de maratonas, seu comportamento fora alterado. O sucesso viera acompanhado de um imprevisível estresse. Logo ela, tão resistente, ficara estressada! – pensava ela, relutante. Mas seus gritos, cada vez mais freqüentes, a denunciavam. Negou o cansaço, o estresse, as gripes; negou toda sorte de dor ou desconforto até onde pode, até que, permitiu-se uma folga e tirou férias. Vinte dias, labutava ela, seriam mais que suficientes para descansar e se recuperar. O seu próprio estresse havia se tornado desconfortável, até para ela mesma.



Agendou sua própria viagem, arrumou suas malas e a do marido. E quando fez a lista de contas a pagar para a filha sentiu algo que não havia se permitido sentir nos últimos dez anos. Sentiu cansaço. Resolveu deitar um pouco, quem sabe, vinte minutos de sono, façam-no desaparecer. Mas, vinte minutos de sono, tornaram-se vinte horas de sono. Seu esposo, preocupado, e um pouco desorientado, pela falta de seus medicamentos, a acordou. Ela, impaciente, levantou-se, mas viu o mundo girar e tombou na cama, novamente. Sua respiração estava abreviada e sentia-se como se estivesse se afogando sobre a cama. O marido, desesperado, ligou para sua filha, que chegou às pressas para levar a mãe na emergência.



Laura relutou até onde pode, mas sua relutância foi tão breve, quanto sua respiração. Passou a tarde sentada na maca, aguardando os médicos plantonistas, que não consideraram seu caso grave. Mas no final da tarde, não conseguia mais manter-se sentada, e deitou. O médico chegou minutos mais tarde para informar o diagnóstico. Ela sentou-se, novamente, pronta para tomar o medicamento e voltar para casa, viajaria no dia seguinte, por que aquele infeliz a segurava ali? Entretanto, o médico não trouxe nenhum remédio, trouxe, sim, más notícias, que pareciam bombas a explodir na cabeça de Laura. A senhora tem um derrame pleural secundário a uma pneumonia não tratada (PUM), terá que ficar internada (PUM), na UTI (PUM). Ela tentou falar, mas não lhe restava muito ar, conteve o choro. Havia perdido sua viagem de descanso, continuaria estressada.



Foi só quando viu seu marido e sua filha se distanciarem, que se deu conta do ocorrido. Ela, Laura Magalhães, taurina, sessenta anos, que sempre fez atividade física, que sempre teve uma saúde de ferro, que nunca ficou de cama, estava sendo internada por tempo indeterminado. Começou a rezar quando ouviu o barulho ensurdecedor da UTI com seus respiradores, seus gemidos de convalescentes, médicos, enfermeiras, técnicos. Sua primeira noite no hospital lhe pareceu um estupro. Os sons lhe invadiam e não havia maneira de contê-los. Ao seu lado, um paciente delirante falava para quem quisesse ouvir suas senhas, seus códigos de banco, seus montantes de dinheiro, seu testamento. Quando Laura viu a filha, só teve um pensamento, dizer-lhe que era tudo um grande engano, que ela era mais saudável que a própria cria, que ela demandava que a tirasse dali, imediatamente. Porém, quando tentou falar, nem ela mesma ouviu sua voz. E adormeceu.



A partir dali, sua vida parecia ter se transformado no inferno de Dante. De hora em hora, entravam pessoas, que olhavam a placa afixada na parede que dizia:



LAURA MAGALHÃES



60 anos



Alérgica à AS



Pigarreavam e forçavam um sorriso, para lhe perguntar como estava, se havia dormido, como se sentia. Laura tinha vontade de gritar as respostas àquelas perguntas tontas. Claro que não estava bem, afinal de contas estava num hospital, internada em uma UTI, como podia estar bem? Claro que não conseguia dormir, o paciente ao lado não calava a boca e os funcionários não paravam de entrar em seu leito! E como se sentia frágil. A fragilidade não lhe era bem vinda, sempre se esforçara para não demonstrar qualquer tipo de fragilidade, mas agora estava ali, com a fragilidade que escondera por anos, totalmente, a mostra. Como resposta, Laura apenas sorria e acenava com a cabeça. Ninguém parecia se importar.



No dia seguinte, sentia-se mais ativa, mas os médicos pareciam não concordar com ela. Passava o tempo inteiro esperando ver os rostos da filha e do esposo. Todavia, já tinha certeza de que teria que passar algum tempo ali. Começou a rezar para sair dali logo. Perguntou pelo paciente ao lado, as auxiliares lhe disseram que fora a óbito. Seu coração disparou. Havia chegado seu momento de ir? Não! Não, Não! Gritava a voz dentro de sua cabeça. E começou a rever tudo que teria que passar para filha caso algo lhe ocorresse. E continha as lágrimas de tristeza. Entrou no lugar do paciente que foi a óbito, um outro, que passou a noite inteira chamando uma tal de Maria e mandando lembranças para Josy e Cristina, as filhas? Até que, depois do que pareceu uma eternidade para Laura, ele se calou. Mas o silêncio dele acendeu o barulho das máquinas e Laura pode ouvir toda a correria dos médicos para reanimá-lo. Mas, já era tarde. Laura pode ouvir o som do “pin”, que, até então, só ouvira em séries médicas.



Laura se sentia no corredor da morte. Juntou todas as suas forças para orar e pedir clemência a Deus. O que quer que tivesse feito de tão ruim, já estava pago! Ouviu do médico que seu derrame havia aumentado. Não deu muita bola até ver a cara da filha. Pressentiu, então, que algo pior estava por vir. E veio. Colocaram nela uma máscara dizendo que, com ela, respiraria melhor. Mas quem quer que tenha inventado esta máscara, não entedia lhufas do conceito “melhor”. A máscara parecia um instrumento de tortura. Sentia que afogava a cada vez que inspirava, logo ela, que sempre teve medo de mar e de morrer afogada, agora, morria. Passou o dia inteiro se afogando e só não enlouqueceu, porque algo dentro dela, lhe dizia, com raiva, que quando saísse dali iria ser feliz. Rezou o dia inteiro para que aquilo fosse verdade, enquanto se afogava na máscara. Quando estava a ponto de perder totalmente as forças e a lucidez, sua filha intercedeu e os médicos concordaram em suspender seu sofrimento.



Se recusou a estender suas dores no hospital e decidiu que aquele era o ponto final de seu sofrimento. Mas teve os pensamentos interrompidos. Era hora da coleta de sangue. Fechou os olhos, como que para negar a cena, quando viu um técnico inexperiente lhe furar o braço três vezes, não encontrar sua veia e partir para novas tentativas no outro braço. Seu braços com três perfurações inchou imediatamente, ficou quase do tamanho de sua perna. E como se isto não fosse o suficiente, começaram a lhe furar, além dos braços, a barriga. “Ser feliz, ser feliz, ser feliz...” A frase lhe ecoava na cabeça.



Ao amanhecer do terceiro dia, já não suportava mais a idéia de ter duas mulheres que jamais vira lhe dando banho, lhe esfregando as partes, tendo que anunciar a hora de seus dejetos. Mas, tudo isto pareceu menor, quando viu sua filha sorrir pela primeira vez desde que dera entrada. Respirou fundo, e o sorriso lhe devolveu a gana de agarrar o mundo e ser feliz. Sua fisioterapia evolui para a caminhada. Mas, constatou que seu corpo, tão atlético havia perdido massa e a marcha lhe saía trôpega, insegura. Logo ela, meu Deus, tão segura, que sempre caminhara com passos firmes, largos e rápidos, não conseguia sequer manter a postura ou largar o braço forte do profissional. Foi durante a caminhada que criou seu segundo mantra, sairia dali logo e, quando voltasse, tudo iria mudar!



No quarto dia foi transferida para a semi UTI. O local era praticamente o mesmo e Laura tinha a sensação que havia mudado apenas para um espaço mais frio e mais apertado. O que tentavam fazer com ela naquele hospital? Deixá-la louca, ou matá-la de frio? A semi UTI era tão fria, que tornava sua respiração difícil. Parecia que o ar congelava antes de poder entrar em suas narinas. Pediu ajuda as auxiliares de enfermagem, que lhe trouxeram três cobertores. A assistência não lhe satisfez, se sentia no Pólo Norte, e parecia que todos os que trabalhavam ali haviam congelado junto com o ambiente. A única pessoa receptiva era um auxiliar, que sempre chegava ofertando um sorriso amável e um tratamento caloroso. Os médicos que iam e vinham em seus plantões olhavam para sua ficha, um pouco cansados e temerosos de não se confundir no diagnóstico, davam esperanças a ela de que aquela tortura estava chegando no fim. E, para ela, o fim daquela agonia parecia nunca chegar. A única pessoa negativa e que insistia em mantê-la ali era uma pneumologista que dizia que seu caso era grave e parecia querer acorrentá-la ali. Para ela, era fácil, fria, branca como a dama da neve, ela ia e vinha tranqüilamente no hospital, que aprecia ser sua segunda casa. Para ela o gelo polar, as agulhadas, o barulho das máquinas hospitalares eram sons musicais distantes e torturas necessárias. Claro, aquela sádica idiota não era a paciente! – pensava Laura. Todo torturador adora ver o torturado sofrer, mas ela, Laura Magalhães não seria mais uma de suas vítimas! Desde quando os médicos se tornaram tão perverso?, indagava a convalescente. Então, encheu-se de força e quando ouviu da suposta doutora que tinha de ficar em observação na semi UTI por mais alguns dias, ela replicou autoritária que ali não iria permanecer por nem mais um dia. Ainda reforçou a frase dizendo que se morresse, não a processaria, sequer ao hospital, por ela não poderia lhe causar dano maior do que mantê-la acorrentada ao iglu que estava. A médica, adivinhando a dor de cabeça que teria se a mantivesse ali cedeu aos desejos de Laura. Sua alta para o quarto foi concedida no dia seguinte.


Na tarde do sexto dia Laura foi levada para o quarto. Tamanha foi sua surpresa ao chegar ao quarto e se deparar com duas mulheres, uma na cama, a outra na poltrona. Não ficaria sozinha?! Não tinha direito a isto?! Não havia pago por isto?! Mas, Laura estava fraca demais para protestar, havia usado toda sua reserva de energia para confrontar a pneumologista. Buscou o abrigo de olhos conhecidos e encontrou os olhos do marido. Seus olhos condescendentes observavam o esposo. Como viveria ele sem ela? Será que ele conseguiria viver sem ela? A filha, com certeza, mas seu esposo. O que faria? Ligou para sua filha, que, para variar levou muito tempo para chegar. “Que ótimo” – pensou, ainda terei que conviver com mais estranhos! A paciente da cama ao lado parecia estar na casa dos oitenta e sua acompanhante muito mais jovem, parecia ser sua filha. Quando sua filha chegou pediu para que ela lhe auxiliasse no banho, mas este acabou sendo um desastre. A filha não sabia manusear o chuveiro e água acabou caindo gelada em todo seu corpo, nos curativos, nos drenos e Laura sentiu-se desmoronar e se partir em gotas. E com os olhos marejados, não disse nada, só continuou o seu banho, ouvindo os lamentos trêmulos da filha.


Quando saiu do banho, encarou as duas figuras, que lhe olhavam detidamente. Ah! Pelo menos são apenas duas e não há mais o barulho das máquinas. E deitou em sua cama sem dar atenção ou se incomodar com as outras. Sua filha não quis dormir no hospital naquela noite e seu marido insistiu em permanecer ali, não queria sair do seu lado. A senhora, Dona Júlia ficou encantada com o homem, e diante de seus apelos para que seu marido fosse embora, ela só disse: “Amor assim, minha filha, não existe mais! Deixe ele ficar. Só esta noite.”. Laura, tocada, como há tempos não se sentia, acatou o conselho da velha. No decorrer da noite, cada vez que precisava da ajuda de seu esposo, ele entrava em tal ansiedade que, ao invés de ajudá-la, acabava lha atrapalhando. Não queria brigar com o esposo, mas será que ele não percebia que não conseguia ajudá-la e que ela não estava em condições de se ajudar, imagine ajudar ele e ela para fazer todas as coisas. Seu marido insistia em cuidar dela. Mas como podia ele cuidar dela? Ele que sempre fora cuidado, nunca cuidador. Rezou para que a noite passasse logo e que a filha tomasse o lugar do marido. Mas, quanto mais rezava mais o marido a aturdia, até que o esposo caiu da cadeira e ela perdeu o fio que lhe restava de paciência e disse ao marido que era ela quem estava doente e que ele só a atrapalhava. Assim que fechou a boca, viu a dor nos olhos do marido. E fechou os olhos, sem forças. Foi neste momento, que sentiu um calor sobre seus olhos, o calor parecia estar levando as nuvens que embotavam seus pensamentos e sentimentos e ficou ali de olhos fechados. Quando os abriu, viu que a filha da senhora, Iara, havia ajudado seu companheiro a reerguer-se e que ainda mantinha suas mãos sobre sua testa. Iara lhe explicou que era médium, espírita, que ela lhe havia chamado a atenção desde a UTI e que vinha lhe aplicando passes desde lá. Sabia que a encontraria novamente, porque Laura, ela sentia, precisava de seus passes. Laura, pode sentir toda sua proteção e cuidado e lhe agradeceu sem palavras, apenas com seus olhos, do fundo de seu coração. No fim, Iara cuidou de todos.


Foram dois dias dividindo o mesmo quarto e Dona Júlia mostrou-se uma pessoa cheia de garra, muito determinada em viver plenamente, apesar das patologias que sofria nos rins, fígado e, principalmente, coração, aquela, definitivamente era uma mulher que amava demais. Suas conversas simples e cheias de amor, sua visão tão diferente do mundo, tudo nela levava a ternura. E sua filha, Iara, mesmo dormindo numa cadeira reclinável por duas noites, parecia não perder a disposição para o cuidado. Sensitiva, prestativa e atenciosa, quando não havia nada que ela pudesse fazer para acolher Laura, o esposo e Dona Júlia, ela, espírita e médium, aplicava passes em todos. Laura, tocada, decidiu que iria passar o bem adiante e que ela própria ajudaria alguém que ela sabia que precisava.


Após dois dias, o hospital percebeu que havia unido as duas por pura confusão das fichas dos planos de saúde. Com medo de sofrer processos jurídicos, remediou o erro, separando as duas. De incômodo, a princípio, Dona Júlia e Iara, acabaram sendo anjos, figuras divinas, a certeza de sua recuperação voltou forte nela. Laura foi transferida para um quarto maior, que dispunha de um sofá e uma cadeira para maior comodidade dela e do acompanhante. Dona Júlia vinha visitá-la todos os dias. Quando recebeu alta, Laura fez uma oração em agradecimento, mas, uma parte dela ficou muito triste em perder a companhia. Já havia conhecido toda a família de Dona Júlia. Entretanto, apenas Iara e Dona Júlia haviam lhe tocado o coração.


Continuou no quarto da UTI por mais sete dias. Rezava todos os dias para que seu suplício tivesse fim. Já não agüentava mais a comida, a cama, as medicações, a falta de privacidade. Com a partida de Dona Júlia e Iara, percebeu que precisava de cuidados maiores para o banho e outros e contratou uma auxiliar particular, assim poderia dar folga a filha e ao marido, que passavam longas horas no hospital ao seu lado. Só percebeu sua força voltar quando caminhou sem sentir falta de ar, sem ter as pernas bambas. E então, ela se viu renascer. Toda sua força, toda sua determinação pareciam voltar a cada dia, como num conta gotas, aos poucos, com cuidado ela foi ficando mais e mais independente, caminhava todos os dias, por todos os corredores do hospital, sempre se destinando à saída, era este seu foco. No sétimo dia no quarto particular, o pneumologista da UTI que lhe livrara da cirurgia pulmonar enquanto ainda estava na ala de cuidados intensivos, veio visitá-la. Ele, sempre portador de boas notícias, recitava ela, como um mantra pessoal. Mas, não podia deixar de tremer, com a perspectiva de ter de voltar as portas do inferno que era a UTI. Ele olhou atentamente seus exames e depois de um tempo que lhe pareceu interminável lhe deu um veredicto que encheu seus olhos de lágrimas. Ela estava de alta! Alta! Alta! Alta! Ela ouvia a voz do médico se repetir como um eco em sua cabeça.


Saiu do hospital determinada a passar a ajuda que obteve ali com Dona Júlia e Iara adiante. Ligou para Teresa, uma cozinheira, que se tornou sua babá e mais tarde sua amiga, que até hoje lhe visitava com empadas, bolos e pães, seus preferidos. Pagou todas as despesas médicas de Teresa, inclusive os remédios. Para sua surpresa Teresa estava saudável, mais forte que ela! Riu de satisfação. Sua primeira promessa estava cumprida, agora, era para ela. Se deu uma semana para voltar ao trabalho. Cortou os cabelos bem curtos, num corte mais estiloso, diferente de tudo que já havia feito, pintou os cabelos, fez as unhas, doou uma grande parte de seu guarda roupa, comprou roupas novas. Quando voltou ao trabalho diminuiu o ritmo de suas atividades e a quantidade de hora que dedicava a elas. Foi ao cardiologista, nutricionista, pneumologista. Um mês foi o tempo necessário para voltar a academia, para que sua pressão se normalizasse e para que o líquido de seus pulmões que ainda estava extravasado voltasse para seu devido lugar. Ela era uma nova mulher!


Resolveu recomeçar sua vida, voltar aos seus planos de viagem, dedicar-se a sua vida e a si mesma. Havia lhe custado sessenta anos e um passeio de quinze dias no barco de Caronte*, mas havia logrado chegar ao Paraíso. Laura finalmente voltava para seu corpo, Laura voltava para si mesma, voltava para ela. Esta foi sua decisão final e dela, nunca mais, abriu mão.



FIM











*Caronte é o barqueiro que faz a travessia das almas para o Inferno no poema Divina Comédia de Dante Alighieri.

Um comentário:

Cris disse...

Nossa, amiga que texto... Tao bem escrito que eu pude de fato sentir a agonia da personagem... De onde você tira essa inspiracao? Nossa!! Muito interessante porque recentemente li uma reportagen sobre a síndrome do "burn out", como é chamada por essas bandas. O que é descrito no seu texto se assemelha muito ao que algumas pessoas contaram nessa reportagem.

Beijos