quinta-feira, 18 de agosto de 2011

As aventuras de Morena

Com uma trouxa de roupa na cabeça, os joelhos gastos, as juntas duras, olhou para cima para contar quanto ainda lhe faltava para chegar no topo do morro e alcañçar, finalmente, o seu bairro. A visão daquela escadaria imensa, que aprecia não ter fim, lhe desanimou e ela preferiu seguir cabisbaixa. Não havia sentindo em parar. Para onde quer que olhasse só via escada, lixo e céu azul. Seu bico de papagaio havia paralisado seu quadril e cada passo lhe custava um esforço enorme. Mas resolveu seguir, não era isso que fazia há cinquenta anos, seguia a vida? Fechou os olhos por um momento e as lembranças dos tempos em que a vida a seguiam lhe encharcaram as faces de lágrimas. Já não podia mais aguentar e sentou um pouco para descansar. E começou a se lembrar de todas as estórias que ouviu sobre si mesma e as que ela própria havia guardado no coração.




Ela nasceu num dia de céu azul e nuvens bem brancas de um verão qualquer, em pleno carnaval. Seu nascimento se confundiu então com a festa de rua e todo aniversário parecia que o bairro todo comemorava a sua chegada. Não era nem branca, nem negra, sua pele era de cor de avelã e por isso lhe batizaram de Morena. Não tendo tempo de chegar até o hospital pela confusão do carnaval, a mãe lhe teve no meio da sala, sob o olhar vigilante do avô e as mãos cuidadosas da avó. Daí em diante sua vida parecia ser uma eterna aventura. Corria o tempo todo de um lado para o outro. Seu bairro, pequeno e cercado de escadas tortas, se localizava no alto do morro e lhe parecia enorme, grande o suficiente para abrigar o mundo. Seu Clark do mercado era americano, Seu Olivier da quintanda era francês, Seu Manuel da padaria, português, Seu Juan do açougue, espanhol e Seu Zé do bar, brasileiríssimo.E era justo no bar que todos se reuniam nas sextas feiras à noite, para beber e relembrar histórias de outra vida. E foi assim que aprendeu sobre o mundo, seus costumes e línguas. Aprendeu ainda palavras soltas de outras línguas. Quando se cansava, deixava a mãe e o namorado daquele dia e saía montada em sua bicicleta e em compainha dos amigos para explorar e encontrar aventuras. E toda sua meninice foi assim, sua vida se resumia as pessoas e coisas que compunham seu bairro. Na sua adolescência as coisas começaram a mudar por ali, ela própria havia começado a mudar. Seus companheiros de aventura a haviam abandonado para caçar fora dos limites do bairro e trouxeram para lá coisas que, pela reação deles, não parecia ser bom. Seu avô batizou a novidade de droga e a proibiu de andar com esses rapazes ou usar a tal droga. Mesmo que não a tivesse proibido, não usaria, para ficar abestalhada como eles? O que eles viam na idiotice? Um ano mais tarde, quase todos os seus amigos haviam se rendido às drogas. Apenas um não usava, mas convidava a todos para provarem, de graça, se fosse a primeira vez. Seu avô, o chamou de traficante e, na escola, perguntou a professora o que aquilo significava. Assustada, achou que era a pior profissão do mundo e foi ter com Geninho, para lhe abrir os olhos da besteira que estava fazendo. Quando chegou na casa de Geninho, ele estava sozinho. A mãe o havia abandonado quando tinha seis anos, para seguir um espanhol, de nome Estebán, por quem havia se apaixonado. Seus avós se encarregaram de criá-lo, mas faleceram no ano passado; o avô, que trabalhava na mina, foi engolido por uma máquina de moer pedra para achar tesouros e a avó, morreu quando soube da notícia, seu coração partiu. Desde então Geninho havia ficado sozinho e não gostando de trabalhar para não morrer como seu avô, optou por um trabalho mais leve, entretanto, bem mais perigoso e vergonhoso, tornou-se traficante. Geninho lhe olhou com olhos de cachorro quando vê cadela no cio. Ela se manteve a uma certa distância para conseguir se fazer ouvir. Sentia medo, mas não ousava baixar os olhos, nem se desgrudar das palvras que saltavam de sua cabeça para sua boca. Seu suór frio ia ficando pegajoso quanto mais respirava aquele ar contaminado daquele odor acre de droga. Quando terminou de abrir os olhos sobre a bobagem que estava cometendo, Geninho foi duro e seco, como sua aparência, lhe disse apenas que ela não era a mãe dele, que se tivesse a ousadia de ir apra sua casa proferir desaforos, seria encontrada morta numa vala, e suspendeu a camisa para lhe provar que não estava de brincadeira. Morena viu pela primeira vez na vida, uma arma, que Geninho chamou de três oitão. Saiu com as pernas bambas andando em passos compassados, até que quando estava longe do olhar ameaçador do traficante, saiu correndo, até que sentiu seu medo se desfazer em cansaço e parou. Decidiu que não se meteria mais na vida de quem quer que fosse, por melhor ou pior que conhecesse a pessoa. Durante uma semana se escondeu em casa, receosa de ruzar novamente com Geninho. Mas, como não se pode fugir do destino, ainda mais num bairro tão pequeno.... Um tempo depois, quando já não se lembrava mais da estória, saiu para dar um passeio a pé pelo bairro, quando viu uma figura trôpega vir em sua direção. Era Geninho, muito bêbado. Disse-lhe que ela estava certa, que aquilo não era vida para ele, que aquilo era a própria morte. Acrescentou que havia matado o primeiro rival, que era a primeira vez que havia usado a arma, por sorte, havia se lembrado de carregá-la. Mas depois que se mata um, que se toma o ponto de outro, a estória vira uma questão de honra, vida e morte. Que seu porre era fruto da consciência que Morena lhe havia implantado e que estava indo buscá-la, porque havia decidido, precisava de uma mulher como ela ao lado. E a partir daí, Morena já não o escutava, correu o quanto pode, mas de tanto medo, saiu tropeçando nas pedras, nas calçadas irregulares, até que sentiu o peso do corpo do home cair sobre o dela. Era uma luta mesclada de sangue de um morto qualquer, dor, lágrimas, murros e pontapés. Até que seu sangue começou a escorrer primeiro da face, depois de suas partes íntimas, sentiu uma dor lascinante lhe furando o ventre e transformou a dor em mordidas, arranhões e novos pontapés. Quando conseguiu se desvencilhar do homem, voltou a correr com o vestido aos trapos. Ouvindo sua voz ao fundo gritando ente sorrisos, que ela era linda, a mulher mais maravihosa que já conhecera, era bela e forte.




Nos dias seguintes foi sentindo um calor lhe subir por ente as pernas cada vez que pensava no traficante. Mas não era mulher de malandro, não iria atrás dele. Mas não precisou fazê-lo, Geninho veio até sua porta, pedir aos avós que lhe permitissem namorar a neta - já que sua mãe também havia partido para São Paulo, para tentar melhor sorte na cidade grande. Incrédula, Morena esperou a negativa, porém essa nunca chegou. E começaram a namorar. De tanto namorar, Morena engravidou em menos de um mês. Geninho lhe pediu que abortasse, traficante não podia ser pai de família. Entretanto, Morena não lhe deu ouvidos. Sonhava em ser mãe e seguiu com a gravidez. Quando já estava com oito meses, Geninho não viu outra alternativa a não ser partir para um trabalho formal e deixar a bandidagem. E assim o fez. Loureno nasceu marrom claro. Tinha as feições do pai e o temperamento da mãe.




Seguiu a infância exatamente como a mãe. Correndo atrás de aventuras pelo bairro. A mãe o acompanhava ao longe, como fizera sua própria mãe. No dia 02 de fevereiro, dia da festa de Yemanjá organizada pelos moradores do bairro, quando as famílias iam juntas reunir-se para orar e deixar os presentes para a Rainha do Mar, Morena se arrumava e arrumava o menino para a festa quando ouviu batidas na porta, que se tornavam cada vez mais violentas. Antes que pudesse segurá-lo Lourenço avançou apra a porta e bateu nela também, achou que alguém brincava com ele, até que a porta veio abaixo, Lourenço correu para os braços do pai, que ao ver os homens o jogou no chão violentamente, antes de cair ele mesmo, violentamente, no chão. Geninho morreu no ato, após receber treze tiros de homens, que Morena só pode descrever para a polícia que chegou apenas após o enterro, como jovens drogados.




Morena então se viu mãe solteira. E teve que deixar os limites antes tão seguros do bairro para rumar para a cidade em busca de emprego. Quando viu aquelas escadas tortas, as ladeiras remendadas, a infinidade de nuvens no céu, enxugou com as lágrimas as lembranças de estar num vale perdido, fincado na paz roubada. Optou por descer a ladeira e se divertiu com o próprio rebolado. A cidade era uma lástima. Gente correndo, se atropelando, sem se olhar nos olhos. Ninguém dava atenção à ninguém. Todos no ônibus faziam contato apenas com um aparelho que lhe tapava os ouviso, como se assim pudessem silenciar os sons externos. Os muitos carros buzinavam tanto, que pareciam, guisos estridentes de impaciência. Se segurou nas pernas para não se deixar levar por aquele tormento frenético e sentindo que as forças lhe faltavam tirou os sapatos que lhe apertavam os dedos e lhe desequilibravam para buscar a firme sustentação do chão. MAs este também termia com o passar os ônibus e caminhões. Apertou forte os olhos e se convenceu de que partia para uma nova aventura. E foi assim, imbuida do espírito de caçadora que encontrou um supermercado e decidiu entrar. Conseguiu empregar-se como caixa, nesse mesmo hipermercado. Depois de alguns meses, as aventuras cederam espaço para o marasmo. A cidade não lhe causava mais espanto ou surpresa. Trabalhava muito, ganhava pouco. Teve que conter-se para não entrar na insatisfação permanente (e justificadas) de suas colegas de trabalho. Estava claro porquê seu ex companheiro havia optado pela bandidagem. Porém cada vez que saía não tinha desejo de voltar ali, nem mesmo pelo seu filho e fazia cada vez mais hora extra.




Um dia, numa de suas idas e vindas pelas ladeiras e escadas do bairro, conheceu Roberto. O rapaz lhe pareceu muito mais novo que ela, mas àquela altura já fazia dez anos que o pai do seu filho havia partido e pensou que não lhe faria mal ofertar-se esse consolo. Roberto era caminhoneiro e fazia entregas para a quintanda, para o açougue e para o supermercado. O francês, o americano e o português haviam fechado um acordo, que eles batizaram de euroamérica e, por isso, contrataram os serviços de Roberto. Os estrangeiros já estavam tão senis que não tinham mais disposição de subir e descer as ladeiras e escadas do bairro e desonfiavam que os próprios filhos lhe surrupiavam. Então, uniram-se em prol do bem comum. Roberto era um touro na cama, mas tinha um fraco pelo álcool. Quando bebia, quebrava a casa quase toda, os poucos móveis e louça. Morena não ligou muito para isso, até que o homem começou a lhe pegar também. Foi aceitando os golpes, como fardo do destino, até que ele quis pegar seu filho. Nesse dia descobriu-se grávida de outro rebento e cega de vingança. Lourenço, muito mais fraco e mirrado que Roberto havia desmaiado com o primeiro soco, mas o caminhoneiro insistia em lhe dar chutes, como para ter certeza de que estava desmaiado. Morena, com precisão cirúrgica lhe cravou a faca de cortar carnes nas costas e o homem tombou no chão. Tentou erguer-0se, a mulher lhe tirou a faca, lhe cravou no peito.




Morena disse mais tarde a todos que Roberto havia se matado. Ninguém lhe fez perguntas, apenas aceitaram a estória. Afinal, a paz reinava novamente no bairro, sem os gritos horripilantes que vinham da cas dela toda sexta feira. Lourenço partiu para a vida, nãos em antes, jogar na cara da mãe que jamais a perdoaria por elvar para casa tal brutamontes e por não ter previsto as consequências. Morena ouviu calada, cabisbaixa. Chorou por uma semana inteira e quando o novo rebento chegou já estava com 44 anos e o rebento chegou meio vivo, meio morto. Mas tornou-se uma mulher muita bonita, que ela batizou de Esther. A filha se mudou para outro bairro. Dizia não aguentar aquele mundo pequeno em que a mãe vivia e detestava a pobreza, faria dinheiro não importava como. A menina havia nascido para os luxos, para as regalias, não para o comedimento. Tampouco ahvia nascido para os homens, só gostava de mulheres. E Morena aceitou isso, sem questionar ou se irritar. Pela filha soube que Lourenço se mudou da Bahia para morar no interior, no coração das Minas, foi buscar novas aventuras. Esther, por sua vez, abriu um salão de beleza, que ela chamou de Estrela. Frente a condição da mãe, a filha era realmente rica.




Morena não aceitava ajuda de ninguém. Havia criado os dois filhos sozinha, com o dinheiro que ganhava e, mesmo agora, que havia sido afastada por uma doença crônica incurável, que a tornava imprestável até para as habilidades domésticas, que os médicos batizaram de LER/DORT, provavelmente pela dor que gerava nos iletrados. Mesmo agora, não queria esmolas, manteria a dignidade. Começou então a passar roupa nas casas de Madame. Como preferia trabalhar em casa, levava as roupas na cabeça para casa, para devolvê-las no dia seguinte. Tinha suas razões para deixar o bairro, mas nenhuma para retornar a ele. As pessoas que amara já não pertenciam a esse mundo. Os filhos eram donos de outros mundos, agora. A Ler/DORT lhe havia tirado parte do movimento dos braços, dos joelhos e secado para sempre sua lombar. Preferia morrer só, do que aventurar-se com um outro homem. Os que passaram em sua vida foram o suficiente para lhe partir o coração. Quando esse pensamento lhe chegou a cabeça, o vento balançous eu corpo, como se o embalasse e desatou o nó de sua trouxa. Morena levou uma de suas mãos à trouxa e a outra para o coração. Sentiu ele partir-se. Havia aguentado o que podia. E seu rosto se deformou num sorriso, no mesmo instante que as roupas coloridas se ergueram em valsa à maestria do vento e bailaram sobre ela e em volta dela. Quando seu corpo caiu para trás, ainda teve tempo de ver o céu rosa - amarelado. Partia para mais uma aventura.






terça-feira, 26 de julho de 2011

Paz e Amor




Hoje assistia ao noticiário na TV, quando saiu uma reportagem sobre uma manifestação pública e pacífica de todos os noruegueses que foram as ruas com flores nas mãos para declarar seu repúdio ao insano que saiu matando todo mundo a troco de nada e para dizer para o mundo que o amor não tem fronteiras. Mesmo que tudo hoje em dia tenha se tornado clichê ou bem próximo disso, mesmo quando tudo e nada faz sentido, ainda me emociono quando vejo uma manifestação pública de amor, seja ele(a) o próximo mais próximo ou o próximo mais distante. Creio que só pelo amor, só pelo bem é que podemos encontrar o paraíso em vida, em nossa vida. Que siga havendo no mundo a paz e o amor, como diriam os que nunca deixaram de crer nisso e até os que já deixaram, mas ainda assim disseminaram ambos no woodstock!

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Amor louco



Outro dia estava na praia, tomando um banho de mar gostoso, com um sol bonito, e aquele céu azulão pintado de nuvens brancas, quando entra um casal na água. Ela alta, negra, cabelos cortados bem rente e magra pelo uso excessivo de crack. Ele da mesma altura que ela, branco, cabelos compridos, olhos verdes e magro, pela mesma razão que ela. Nossa! A moça era só alegria. Tudo para ela era lindo! Ela olhava para ele com olhos orgulhosos e gulosos e se jogava no mar, fingindo se afundar em amor. E ele, respondia aos risos, a resgatando, cauteloso. Mais tarde na praça, olha eles lá, despreocupados, andando abraçados, agarrados, parando sob um teto protegido só para acender um cigarro de crack e fumar a sós. Achei aquilo tudo tão poético! Um amor de loucos um pelo outro e pela droga, cola de ligação entre ambos. Num mundo onde o amor tornou-se estilizado, o romance virou clichê. Mais ainda, numa Bahia, onde os homens são tão descarados que as mulheres já entram na relação com medo, cheia de precauções, esperando o momento da traição, desconfiando dos passos, dos olhares, das saídas (e na maioria das vezes, com razão!), o que por si só, diminui a capacidade de entregar-se para o escuro que é esse outro que inspira amor; ver aqueles dois se entregando um ao outro umas vezes sem demora, noutras com urgência, sem se importar com o público, apenas com a paisagem, foi tão inspirador, que desejei eu viver um amor louco, sem o crack, é claro!



terça-feira, 28 de junho de 2011

Apartamentos e Sapatos











Salvador passa por um bum imobiliário. Prédios de 20, 30 andares são erguidos em áreas distintas da cidade num piscar de olhos. E com aspecto cada vez mais modernoso, esses edifícios vão enchendo e poluindo a vista da cidade. Entretanto, a despeito da criatividade dos arquitetos, a descrição sumária de qualquer imóvel considerado novo, comprado ou não na planta é: caixa de fósforos. Essa prerrogativa parece ser tão preponderante que até os programas de TV já dedicam minutos de suas edições para orientar o cidadão a melhor decorar seu pequeno espaço e fazê-lo parecer maior. São usados espelhos, peças flutuantes, TVs que se fixam às paredes, prateleiras, camas com gavetas etc. Aí, você entra no prédio: piscina, salão de jogos, sala de esportes, churrasqueira, sauna, quadra etc. Se encaminha para o apartamento e abre a porta para aquele pretenso luxo vestido de branco, adesivos de parede, sofás-camas retráteis, beliches, mini mesas de centro, mesas de jantar redondas com tampo de vidro móvel - tudo, tudo feito visando a economia de espaço e uma aparência elegante apesar dos poucos metros quadrados. E eu me pergunto: Vale a pena?


Vendo a reportagem sobre como melhor utilisar o pouco espaço da sua nova casa que você passou trinta anos pagando, fiquei me questionando se essa moda não se assemelhava à moda dos sapatos. Desde que me entendo por gente, chique é salto e (pior) fino. Se você vai no shopping, plataforma, se vai no mercado sapatilha, se vai numa festa, salto 15, se vai ao motel, 30. E os dedos dos pés ficam lá, escondidos, espremidos, montados uns sobre os outros, confinados a uma total falta de espaço em troca de uma aparência mais pomposa. Dor, calos, vermelhidão, nada parece findar o ânimo de milhares de mulheres (e também homens) que se cercam de mais sapatos apertados do que seus pés e sua coluna podem suportar, mais sapatos que dias da semana! Antes com a predominância do preto e marrom, basicamente, hoje com o ofuscante (e quase cegante!) rosa choque, azul, verde e amarelo, acompanhados de shorts ou mini saias, tudo muito chique a depender da moda vigente.


Me impressiona a mídia e seu poder. Que convencionou como normal (leia-se normótico - salve Pierre Weil) espremer-se em pequenos espaços ao invés de refestelar-se em grandes áreas abertas. Vá lá que grandes áreas abertas são mais difícies de encontrar e consideravelmente mais caras. Mas prefiro ficar economizando por 30 anos por uma casa espaçosa com área ampla para móveis, circulação de gente, de bichos, de ar, a um restrito catre. Assim como creio que ter os pés livres torna nosso corpo mais livre, mais aberto, para a circulação de ar, de sangue, de emoções e o que mais vier. Um apartamento na Pituba de 120 metros pode parecer chique de longe. Mas um de 300 nos Barris, por exemplo, tem mais pompa, mais classe, mais robustez. Assim como sapatos que permitam o movimento levam o corpo a re-encontrar sua graça natural, sua finesse interior.


Seja um apartamento ou um sapato, acredito que espaço é necessário à vida e defender sua necessidade de área livre faz parte da natureza animal do ser humano e só assim, permitindo-se ampliar os próprios terrenos é que é possível se sentir tão confortável e livre para fazer os próprios olhos e os olhos dos outros brilhar de admiração.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Muitos Carnavais



Ah, o carnaval! Já fui tantas vezes, já pulei atrás de muitos trios, já tomei muita cerveja, cheirei lança – foi inclusive no carnaval que ela me foi apresentada, num murro na minha boca, seguido de um beijo e uma ordem, aspire. Aí, veio uma sirene muito alta que saía de dentro da minha cabeça, uma tontura, mesclada com euforia, a música, qualquer fosse, parecia maravilhosa, novo beijo e mais carnaval. E carnaval, para mim, tinha que ser com muita cerveja, assim, dopada, não via as brigas, os roubos, as milhares de infrações de leis de direitos humanos, cometidos por todos os camarotes, blocos, cidadãos mais abastados, pelos menos abastados, pela polícia... Embebida em álcool, a festa parecia supimpa! As milhares de mãos, que insistiam em me apalpar, puxar, roubar beijo, me derrubar no chão, me imobilizar, me forçar um beijo e me dar a mão para levantar, tudo bobagem, eu não sentia nada! Não que eu fosse um sucesso no carnaval, mas que sempre estava tão bêbada que, notoriamente, parecia ser um alvo fácil. Sóbria mesmo, só babei nos filhos de Gandhi, quando o bloco ainda era composto apenas por negros altos, fortes, lindos, que espirravam água de cheiro no nosso corpo, protegiam as desamparadas e se despediam com um beijo mais terno que sexual. Memórias boas também, quando Carlinhos Brown inventou um corre todo mundo para trás e depois corre todo mundo para frente, quando vi uma senhora bem larga, cair no chão e derramar milhares de latinhas no chão, pedi a Deus para conseguir ajudá-la, mas quando vi, uma roda enorme de pipoqueiros já havia sido aberta para resgatar todas as latinhas da senhora e devolvê-las para o seu gigantesco saco. O mesmo quando perdi e achei minha lente de contato! (quer dizer, acharam. Eu, embriagada, lógico, coloquei a lente na boca e de lá no olho, ganhei uma infecção ocular pós carnaval, mas não fiquei gripada risos). Me apaixonei, pelo menos três vezes durante o carnaval, mas nunca surgiram namoros destes amores carnavalescos, só ficadas mais cumpridas. Mas, hoje, ouvindo e vendo as pessoas passando bem embaixo da minha janela, o cheiro de mijo mesclado com cerveja e suór, o enorme montante de gente que passa com camisas de blocos, camarotes, sem camisa, às vezes, até sem roupa! me dão um desânimo. Acho que nem mesmo bebássa me divertiria. Talvez, tome coragem e vá na rua, pipocar. Mas, por enquanto, vou ficando alcoolizada em casa mesmo e indo dormir. Descobri a fórmula perfeita para dormir bem, com o barulho infernal que insiste em invadir minha casa. Duas latas de cerveja e aí, nossa, durmo tão bem, que esqueço tudo, não escuto nada. Então, escrevendo isto, meu rosto esboça um sorriso. Foram muitas as minhas mudanças ao longo dos carnavais (foram muitas, também, as mudanças do carnaval, na forma, na quantidade de gente etc), mas, quando fico em Salvador, morando na Barra, a única coisa que não parece ter mudado, é o fato de passar todos os carnavais, bebássa! (gargalhadas). Saudades imensas de todos aqueles que participaram comigo das milhares de aventuras carnavalescas, Malara, Violet, Iara, Raquel, Mylena, Majó, Dan, Anaê, e tantos outros, memórias de outros tempos, outra vida. E daqueles, que com certeza, dividiram um cigarro comigo, neste momento casulo como Cris e Lua. A todos, vai meu desejo sincero de bom carnaval. Mas, agora, tenho que ir, estão batendo na minha porta. Mais uma vez, lá vou eu, pipocar. Só pra garantir, vou pegar uma piriguete* kkkkkkkk



* Piriguete, nome dado as mulheres mais fáceis, que todo mundo passa a mão. Os baianos, eita povo criativo, não só lançaram este nome no mercado de relacionamentos, como batizaram a cerveja Skol de 250 ml, pequeninha e mais barata com o mesmo nome. Segundo descobri, todo mundo prefere a piriguete, é chegar, passar a mão e levar, e ainda garantir pagar menos por isso!

domingo, 5 de dezembro de 2010

O Caminho das Flores





Laura era uma mulher como poucas. Aos sessenta anos já havia passado por todas as agruras da vida sem desmoronar. Vira seu pai ir para o céu ainda menina. Aos cinqüenta, foi a vez de sua mãe ir embora e aos cinqüenta e cinco, seu marido entrara em colapso nervoso, ruindo diante da perda de seus pais, num acidente de carro. Viu-se, então, na perspectiva de cuidadora, dedicando-se ao esposo quase que todos os momentos de seu dia. Mas, Laura, insatisfeita com a possibilidade de passar o resto da vida sem ser reconhecida, resolveu investir em si mesma. Era jovem, bonita, inteligente e saudável. Foi com tamanha determinação agarrar o tão sonhado reconhecimento, que cinco anos mais tarde ele chegou. Tornara-se gerente geral de sua empresa. Trabalhava dez horas por dia, e, quando chegava em casa cuidava do marido, da casa, e ainda, quando tinha tempo, dava assistência a filha. Sentia-se no topo do mundo, ela havia logrado ser boa em todos os aspectos de sua vida.



Quanto mais problemas tinha a resolver, mais se sentia energizada. E passou a acordar às quatro da manhã para continuar freqüentando a academia e, com isto, ter mais energia para enfrentar a tudo e a todos. Mas depois de um ano de maratonas, seu comportamento fora alterado. O sucesso viera acompanhado de um imprevisível estresse. Logo ela, tão resistente, ficara estressada! – pensava ela, relutante. Mas seus gritos, cada vez mais freqüentes, a denunciavam. Negou o cansaço, o estresse, as gripes; negou toda sorte de dor ou desconforto até onde pode, até que, permitiu-se uma folga e tirou férias. Vinte dias, labutava ela, seriam mais que suficientes para descansar e se recuperar. O seu próprio estresse havia se tornado desconfortável, até para ela mesma.



Agendou sua própria viagem, arrumou suas malas e a do marido. E quando fez a lista de contas a pagar para a filha sentiu algo que não havia se permitido sentir nos últimos dez anos. Sentiu cansaço. Resolveu deitar um pouco, quem sabe, vinte minutos de sono, façam-no desaparecer. Mas, vinte minutos de sono, tornaram-se vinte horas de sono. Seu esposo, preocupado, e um pouco desorientado, pela falta de seus medicamentos, a acordou. Ela, impaciente, levantou-se, mas viu o mundo girar e tombou na cama, novamente. Sua respiração estava abreviada e sentia-se como se estivesse se afogando sobre a cama. O marido, desesperado, ligou para sua filha, que chegou às pressas para levar a mãe na emergência.



Laura relutou até onde pode, mas sua relutância foi tão breve, quanto sua respiração. Passou a tarde sentada na maca, aguardando os médicos plantonistas, que não consideraram seu caso grave. Mas no final da tarde, não conseguia mais manter-se sentada, e deitou. O médico chegou minutos mais tarde para informar o diagnóstico. Ela sentou-se, novamente, pronta para tomar o medicamento e voltar para casa, viajaria no dia seguinte, por que aquele infeliz a segurava ali? Entretanto, o médico não trouxe nenhum remédio, trouxe, sim, más notícias, que pareciam bombas a explodir na cabeça de Laura. A senhora tem um derrame pleural secundário a uma pneumonia não tratada (PUM), terá que ficar internada (PUM), na UTI (PUM). Ela tentou falar, mas não lhe restava muito ar, conteve o choro. Havia perdido sua viagem de descanso, continuaria estressada.



Foi só quando viu seu marido e sua filha se distanciarem, que se deu conta do ocorrido. Ela, Laura Magalhães, taurina, sessenta anos, que sempre fez atividade física, que sempre teve uma saúde de ferro, que nunca ficou de cama, estava sendo internada por tempo indeterminado. Começou a rezar quando ouviu o barulho ensurdecedor da UTI com seus respiradores, seus gemidos de convalescentes, médicos, enfermeiras, técnicos. Sua primeira noite no hospital lhe pareceu um estupro. Os sons lhe invadiam e não havia maneira de contê-los. Ao seu lado, um paciente delirante falava para quem quisesse ouvir suas senhas, seus códigos de banco, seus montantes de dinheiro, seu testamento. Quando Laura viu a filha, só teve um pensamento, dizer-lhe que era tudo um grande engano, que ela era mais saudável que a própria cria, que ela demandava que a tirasse dali, imediatamente. Porém, quando tentou falar, nem ela mesma ouviu sua voz. E adormeceu.



A partir dali, sua vida parecia ter se transformado no inferno de Dante. De hora em hora, entravam pessoas, que olhavam a placa afixada na parede que dizia:



LAURA MAGALHÃES



60 anos



Alérgica à AS



Pigarreavam e forçavam um sorriso, para lhe perguntar como estava, se havia dormido, como se sentia. Laura tinha vontade de gritar as respostas àquelas perguntas tontas. Claro que não estava bem, afinal de contas estava num hospital, internada em uma UTI, como podia estar bem? Claro que não conseguia dormir, o paciente ao lado não calava a boca e os funcionários não paravam de entrar em seu leito! E como se sentia frágil. A fragilidade não lhe era bem vinda, sempre se esforçara para não demonstrar qualquer tipo de fragilidade, mas agora estava ali, com a fragilidade que escondera por anos, totalmente, a mostra. Como resposta, Laura apenas sorria e acenava com a cabeça. Ninguém parecia se importar.



No dia seguinte, sentia-se mais ativa, mas os médicos pareciam não concordar com ela. Passava o tempo inteiro esperando ver os rostos da filha e do esposo. Todavia, já tinha certeza de que teria que passar algum tempo ali. Começou a rezar para sair dali logo. Perguntou pelo paciente ao lado, as auxiliares lhe disseram que fora a óbito. Seu coração disparou. Havia chegado seu momento de ir? Não! Não, Não! Gritava a voz dentro de sua cabeça. E começou a rever tudo que teria que passar para filha caso algo lhe ocorresse. E continha as lágrimas de tristeza. Entrou no lugar do paciente que foi a óbito, um outro, que passou a noite inteira chamando uma tal de Maria e mandando lembranças para Josy e Cristina, as filhas? Até que, depois do que pareceu uma eternidade para Laura, ele se calou. Mas o silêncio dele acendeu o barulho das máquinas e Laura pode ouvir toda a correria dos médicos para reanimá-lo. Mas, já era tarde. Laura pode ouvir o som do “pin”, que, até então, só ouvira em séries médicas.



Laura se sentia no corredor da morte. Juntou todas as suas forças para orar e pedir clemência a Deus. O que quer que tivesse feito de tão ruim, já estava pago! Ouviu do médico que seu derrame havia aumentado. Não deu muita bola até ver a cara da filha. Pressentiu, então, que algo pior estava por vir. E veio. Colocaram nela uma máscara dizendo que, com ela, respiraria melhor. Mas quem quer que tenha inventado esta máscara, não entedia lhufas do conceito “melhor”. A máscara parecia um instrumento de tortura. Sentia que afogava a cada vez que inspirava, logo ela, que sempre teve medo de mar e de morrer afogada, agora, morria. Passou o dia inteiro se afogando e só não enlouqueceu, porque algo dentro dela, lhe dizia, com raiva, que quando saísse dali iria ser feliz. Rezou o dia inteiro para que aquilo fosse verdade, enquanto se afogava na máscara. Quando estava a ponto de perder totalmente as forças e a lucidez, sua filha intercedeu e os médicos concordaram em suspender seu sofrimento.



Se recusou a estender suas dores no hospital e decidiu que aquele era o ponto final de seu sofrimento. Mas teve os pensamentos interrompidos. Era hora da coleta de sangue. Fechou os olhos, como que para negar a cena, quando viu um técnico inexperiente lhe furar o braço três vezes, não encontrar sua veia e partir para novas tentativas no outro braço. Seu braços com três perfurações inchou imediatamente, ficou quase do tamanho de sua perna. E como se isto não fosse o suficiente, começaram a lhe furar, além dos braços, a barriga. “Ser feliz, ser feliz, ser feliz...” A frase lhe ecoava na cabeça.



Ao amanhecer do terceiro dia, já não suportava mais a idéia de ter duas mulheres que jamais vira lhe dando banho, lhe esfregando as partes, tendo que anunciar a hora de seus dejetos. Mas, tudo isto pareceu menor, quando viu sua filha sorrir pela primeira vez desde que dera entrada. Respirou fundo, e o sorriso lhe devolveu a gana de agarrar o mundo e ser feliz. Sua fisioterapia evolui para a caminhada. Mas, constatou que seu corpo, tão atlético havia perdido massa e a marcha lhe saía trôpega, insegura. Logo ela, meu Deus, tão segura, que sempre caminhara com passos firmes, largos e rápidos, não conseguia sequer manter a postura ou largar o braço forte do profissional. Foi durante a caminhada que criou seu segundo mantra, sairia dali logo e, quando voltasse, tudo iria mudar!



No quarto dia foi transferida para a semi UTI. O local era praticamente o mesmo e Laura tinha a sensação que havia mudado apenas para um espaço mais frio e mais apertado. O que tentavam fazer com ela naquele hospital? Deixá-la louca, ou matá-la de frio? A semi UTI era tão fria, que tornava sua respiração difícil. Parecia que o ar congelava antes de poder entrar em suas narinas. Pediu ajuda as auxiliares de enfermagem, que lhe trouxeram três cobertores. A assistência não lhe satisfez, se sentia no Pólo Norte, e parecia que todos os que trabalhavam ali haviam congelado junto com o ambiente. A única pessoa receptiva era um auxiliar, que sempre chegava ofertando um sorriso amável e um tratamento caloroso. Os médicos que iam e vinham em seus plantões olhavam para sua ficha, um pouco cansados e temerosos de não se confundir no diagnóstico, davam esperanças a ela de que aquela tortura estava chegando no fim. E, para ela, o fim daquela agonia parecia nunca chegar. A única pessoa negativa e que insistia em mantê-la ali era uma pneumologista que dizia que seu caso era grave e parecia querer acorrentá-la ali. Para ela, era fácil, fria, branca como a dama da neve, ela ia e vinha tranqüilamente no hospital, que aprecia ser sua segunda casa. Para ela o gelo polar, as agulhadas, o barulho das máquinas hospitalares eram sons musicais distantes e torturas necessárias. Claro, aquela sádica idiota não era a paciente! – pensava Laura. Todo torturador adora ver o torturado sofrer, mas ela, Laura Magalhães não seria mais uma de suas vítimas! Desde quando os médicos se tornaram tão perverso?, indagava a convalescente. Então, encheu-se de força e quando ouviu da suposta doutora que tinha de ficar em observação na semi UTI por mais alguns dias, ela replicou autoritária que ali não iria permanecer por nem mais um dia. Ainda reforçou a frase dizendo que se morresse, não a processaria, sequer ao hospital, por ela não poderia lhe causar dano maior do que mantê-la acorrentada ao iglu que estava. A médica, adivinhando a dor de cabeça que teria se a mantivesse ali cedeu aos desejos de Laura. Sua alta para o quarto foi concedida no dia seguinte.


Na tarde do sexto dia Laura foi levada para o quarto. Tamanha foi sua surpresa ao chegar ao quarto e se deparar com duas mulheres, uma na cama, a outra na poltrona. Não ficaria sozinha?! Não tinha direito a isto?! Não havia pago por isto?! Mas, Laura estava fraca demais para protestar, havia usado toda sua reserva de energia para confrontar a pneumologista. Buscou o abrigo de olhos conhecidos e encontrou os olhos do marido. Seus olhos condescendentes observavam o esposo. Como viveria ele sem ela? Será que ele conseguiria viver sem ela? A filha, com certeza, mas seu esposo. O que faria? Ligou para sua filha, que, para variar levou muito tempo para chegar. “Que ótimo” – pensou, ainda terei que conviver com mais estranhos! A paciente da cama ao lado parecia estar na casa dos oitenta e sua acompanhante muito mais jovem, parecia ser sua filha. Quando sua filha chegou pediu para que ela lhe auxiliasse no banho, mas este acabou sendo um desastre. A filha não sabia manusear o chuveiro e água acabou caindo gelada em todo seu corpo, nos curativos, nos drenos e Laura sentiu-se desmoronar e se partir em gotas. E com os olhos marejados, não disse nada, só continuou o seu banho, ouvindo os lamentos trêmulos da filha.


Quando saiu do banho, encarou as duas figuras, que lhe olhavam detidamente. Ah! Pelo menos são apenas duas e não há mais o barulho das máquinas. E deitou em sua cama sem dar atenção ou se incomodar com as outras. Sua filha não quis dormir no hospital naquela noite e seu marido insistiu em permanecer ali, não queria sair do seu lado. A senhora, Dona Júlia ficou encantada com o homem, e diante de seus apelos para que seu marido fosse embora, ela só disse: “Amor assim, minha filha, não existe mais! Deixe ele ficar. Só esta noite.”. Laura, tocada, como há tempos não se sentia, acatou o conselho da velha. No decorrer da noite, cada vez que precisava da ajuda de seu esposo, ele entrava em tal ansiedade que, ao invés de ajudá-la, acabava lha atrapalhando. Não queria brigar com o esposo, mas será que ele não percebia que não conseguia ajudá-la e que ela não estava em condições de se ajudar, imagine ajudar ele e ela para fazer todas as coisas. Seu marido insistia em cuidar dela. Mas como podia ele cuidar dela? Ele que sempre fora cuidado, nunca cuidador. Rezou para que a noite passasse logo e que a filha tomasse o lugar do marido. Mas, quanto mais rezava mais o marido a aturdia, até que o esposo caiu da cadeira e ela perdeu o fio que lhe restava de paciência e disse ao marido que era ela quem estava doente e que ele só a atrapalhava. Assim que fechou a boca, viu a dor nos olhos do marido. E fechou os olhos, sem forças. Foi neste momento, que sentiu um calor sobre seus olhos, o calor parecia estar levando as nuvens que embotavam seus pensamentos e sentimentos e ficou ali de olhos fechados. Quando os abriu, viu que a filha da senhora, Iara, havia ajudado seu companheiro a reerguer-se e que ainda mantinha suas mãos sobre sua testa. Iara lhe explicou que era médium, espírita, que ela lhe havia chamado a atenção desde a UTI e que vinha lhe aplicando passes desde lá. Sabia que a encontraria novamente, porque Laura, ela sentia, precisava de seus passes. Laura, pode sentir toda sua proteção e cuidado e lhe agradeceu sem palavras, apenas com seus olhos, do fundo de seu coração. No fim, Iara cuidou de todos.


Foram dois dias dividindo o mesmo quarto e Dona Júlia mostrou-se uma pessoa cheia de garra, muito determinada em viver plenamente, apesar das patologias que sofria nos rins, fígado e, principalmente, coração, aquela, definitivamente era uma mulher que amava demais. Suas conversas simples e cheias de amor, sua visão tão diferente do mundo, tudo nela levava a ternura. E sua filha, Iara, mesmo dormindo numa cadeira reclinável por duas noites, parecia não perder a disposição para o cuidado. Sensitiva, prestativa e atenciosa, quando não havia nada que ela pudesse fazer para acolher Laura, o esposo e Dona Júlia, ela, espírita e médium, aplicava passes em todos. Laura, tocada, decidiu que iria passar o bem adiante e que ela própria ajudaria alguém que ela sabia que precisava.


Após dois dias, o hospital percebeu que havia unido as duas por pura confusão das fichas dos planos de saúde. Com medo de sofrer processos jurídicos, remediou o erro, separando as duas. De incômodo, a princípio, Dona Júlia e Iara, acabaram sendo anjos, figuras divinas, a certeza de sua recuperação voltou forte nela. Laura foi transferida para um quarto maior, que dispunha de um sofá e uma cadeira para maior comodidade dela e do acompanhante. Dona Júlia vinha visitá-la todos os dias. Quando recebeu alta, Laura fez uma oração em agradecimento, mas, uma parte dela ficou muito triste em perder a companhia. Já havia conhecido toda a família de Dona Júlia. Entretanto, apenas Iara e Dona Júlia haviam lhe tocado o coração.


Continuou no quarto da UTI por mais sete dias. Rezava todos os dias para que seu suplício tivesse fim. Já não agüentava mais a comida, a cama, as medicações, a falta de privacidade. Com a partida de Dona Júlia e Iara, percebeu que precisava de cuidados maiores para o banho e outros e contratou uma auxiliar particular, assim poderia dar folga a filha e ao marido, que passavam longas horas no hospital ao seu lado. Só percebeu sua força voltar quando caminhou sem sentir falta de ar, sem ter as pernas bambas. E então, ela se viu renascer. Toda sua força, toda sua determinação pareciam voltar a cada dia, como num conta gotas, aos poucos, com cuidado ela foi ficando mais e mais independente, caminhava todos os dias, por todos os corredores do hospital, sempre se destinando à saída, era este seu foco. No sétimo dia no quarto particular, o pneumologista da UTI que lhe livrara da cirurgia pulmonar enquanto ainda estava na ala de cuidados intensivos, veio visitá-la. Ele, sempre portador de boas notícias, recitava ela, como um mantra pessoal. Mas, não podia deixar de tremer, com a perspectiva de ter de voltar as portas do inferno que era a UTI. Ele olhou atentamente seus exames e depois de um tempo que lhe pareceu interminável lhe deu um veredicto que encheu seus olhos de lágrimas. Ela estava de alta! Alta! Alta! Alta! Ela ouvia a voz do médico se repetir como um eco em sua cabeça.


Saiu do hospital determinada a passar a ajuda que obteve ali com Dona Júlia e Iara adiante. Ligou para Teresa, uma cozinheira, que se tornou sua babá e mais tarde sua amiga, que até hoje lhe visitava com empadas, bolos e pães, seus preferidos. Pagou todas as despesas médicas de Teresa, inclusive os remédios. Para sua surpresa Teresa estava saudável, mais forte que ela! Riu de satisfação. Sua primeira promessa estava cumprida, agora, era para ela. Se deu uma semana para voltar ao trabalho. Cortou os cabelos bem curtos, num corte mais estiloso, diferente de tudo que já havia feito, pintou os cabelos, fez as unhas, doou uma grande parte de seu guarda roupa, comprou roupas novas. Quando voltou ao trabalho diminuiu o ritmo de suas atividades e a quantidade de hora que dedicava a elas. Foi ao cardiologista, nutricionista, pneumologista. Um mês foi o tempo necessário para voltar a academia, para que sua pressão se normalizasse e para que o líquido de seus pulmões que ainda estava extravasado voltasse para seu devido lugar. Ela era uma nova mulher!


Resolveu recomeçar sua vida, voltar aos seus planos de viagem, dedicar-se a sua vida e a si mesma. Havia lhe custado sessenta anos e um passeio de quinze dias no barco de Caronte*, mas havia logrado chegar ao Paraíso. Laura finalmente voltava para seu corpo, Laura voltava para si mesma, voltava para ela. Esta foi sua decisão final e dela, nunca mais, abriu mão.



FIM











*Caronte é o barqueiro que faz a travessia das almas para o Inferno no poema Divina Comédia de Dante Alighieri.

domingo, 31 de outubro de 2010

A Pequena Fábula da Princesa

Era uma vez uma princesa, que vivia num lindo castelo, grande e florido. Para qualquer lado que a princesa olhasse, ela só via natureza. Ela não compreendia muito bem como o castelo funcionava, mas ela sabia que as coisas no castelo funcionavam muito bem. Ela ouvia sua mãe dando as ordens ao longe, mas aquilo não importava, o que a interessava era que no castelo tudo parecia mágico. A princesa tinha amigos, eram outros príncipes e princesas que moravam nos castelos próximos aos seus. E a vida da princesa se resumia a isto. Respeitar os horários das refeições e dos estudos e brincar com seus amigos nos jardins no meio das flores. Até que um dia apareceu no castelo um plebeu, com as vestes esfarrapadas e cabelos desgrenhados. A princesa ficou tão surpresa com aquele estranho, que trazia consigo diferentes cheiros e visões, que resolveu segui-lo, para descobrir que outro mundo era aquele, que não era a vida que corria em seu próprio castelo. Então, depois de tê-lo seguido por dois dias, ela chegou a um vilarejo, era um local jamais sonhado pela princesa e ela, de tão surpresa, de ver o inédito, de tudo ser tão novo, decidiu ficar. A princesa percebeu que fora do seu castelo também havia vida e ela notou que as coisas não funcionavam como em seu castelo. Era uma organização totalmente diferente e, justo por isto, resolveu morar na casa do plebeu. Compreendeu, com certo choque, que a família do plebeu havia se acostumado com a falta. Nunca havia nada na mesa e quando havia comida, as refeições nunca eram servidas nos horários programados. Mas ela continuou a viver com o plebeu, até porque precisava descobrir quais eram as possibilidades dela mesma.

Até que um dia passou um circo na cidade. Ela dançava atrás do caminhão do circo, quando foi convidada a juntar-se a ele, para compor o espetáculo como bailarina. A princesa aceitou o convite, encantada que estava com o Circo. Primeiro resolveu assistir ao show para depois partir com eles. E foi como espectadora que se impressionou com o malabarista. Ele usava duas meninas como malabares e ficava jogando-as para cima, equilibrando as duas em suas mãos. A princesa impressionada questionava-se como era possível manter duas crianças no ar por tanto tempo? Como podiam ficar tanto tempo impedidas de tocar o chão? Como era possível estar sempre as mandando para cima, aos chacoalhos? E, olhando para as meninas, não sabia se riam ou se choravam, tampouco, ninguém ligava. Os risos e as lágrimas se misturavam. E a princesa nunca sabia se as crianças eram felizes ou miseráveis.

A princesa partiu com o circo e foi dividir o trailler com o malabarista. E lá, ela viu que o malabarista pendurava as crianças em fios e, assim, seus pés nunca tocavam a terra. Percebeu também que o chacoalhar que as crianças viviam nunca passava, porque ficavam sempre balançando de acordo com os desníveis das estradas de cada uma das cidades do interior por onde o circo passava. E a princesa, chocada, perguntava-se como podiam as crianças estar sempre balançando de um lado para o outro? Como podiam nunca tocar o chão?

Então, um dia, a princesa viu uma discussão entre o malabarista e um dragão. O dragão era a parte do show, a parte mais emocionante dele, pois o dragão cuspia fogo na platéia, que corria aos gritos de emoção. Mas na discussão entre o malabarista e o dragão, ele, enfurecido, soltava fogo pelas ventas e parecia cada vez mais irritado e o fogo ora queimava as meninas, ora o malabarista, que ficava jogando-as para cima, para tentar livrar-lhes do fogo direto. Mas, no fundo, o malabarista parecia não ligar para o fogo, assim como as crianças, elas pareciam já estar acostumadas a serem queimadas.

Quando voltaram para o trailler, a princesa piedosa resolveu colocar panos frios nos machucados e curativos nas queimaduras. Foi aí que a princesa percebeu que as meninas tinham os pés e as mãos queimadas e, por isto, não tocavam o chão. A cada noite, de semana em semana, a discussão se repetia e as queimaduras se proliferavam. Por isto jogar as crianças para cima aliviava a dor das queimaduras. Assim, a princesa compadecida, passou a fazer mais curativos e também sapatos e luvas para cobrir os pés e as mãos das crianças queimados. Mas o malabarista os retirava assim que as via. Ele dizia que se as crianças pudessem tocar o chão, elas não mais poderiam estar flutuando no ar e, com isto, não haveria mais espetáculo para ele. Então, os esforços da princesa eram em vão. Cada um dos curativos, dos calçados, luvas ou roupas que confeccionava para as crianças eram jogados fora, ou às vezes, eram queimados pelo dragão. E, chocada, indagou-se como o malabarista podia deixar as crianças serem constantemente queimadas? Como podia se deixar queimar?

A princesa descobriu que as crianças eram filhas do dragão com o malabarista, que um dia acreditou que o dragão era uma princesa, que fora enfeitiçada por uma bruxa a permanecer presa no corpo daquela criatura. Acreditou que seu beijo quebraria o feitiço. Mas aquilo não aconteceu. O que ocorreu foi que o dragão foi ficando cada vez maior e o malabarista foi ficando e sentindo-se cada vez menor. Mas o espetáculo precisava continuar. Entretanto, a princesa já não tinha mais inspiração para dançar e encantar a platéia. Assim foi que ela decidiu abandonar o circo e retornar para seu castelo. Já havia aprendido muito mais do que jamais sonhara quando partiu do castelo em busca do novo. Voltou para o local onde tudo parecia mágico e seguro.

Hoje dizem que a princesa desde que retornou, jamais voltou a deixar o castelo e que seu refúgio tornou-se o jardim, onde confecciona roupas para as diversas crianças perdidas, abandonadas ou esquecidas de todos os vilarejos das redondezas, sem se importar se elas serão usadas ou jogadas fora.

FIM