Com uma trouxa de roupa na cabeça, os joelhos gastos, as juntas duras, olhou para cima para contar quanto ainda lhe faltava para chegar no topo do morro e alcañçar, finalmente, o seu bairro. A visão daquela escadaria imensa, que aprecia não ter fim, lhe desanimou e ela preferiu seguir cabisbaixa. Não havia sentindo em parar. Para onde quer que olhasse só via escada, lixo e céu azul. Seu bico de papagaio havia paralisado seu quadril e cada passo lhe custava um esforço enorme. Mas resolveu seguir, não era isso que fazia há cinquenta anos, seguia a vida? Fechou os olhos por um momento e as lembranças dos tempos em que a vida a seguiam lhe encharcaram as faces de lágrimas. Já não podia mais aguentar e sentou um pouco para descansar. E começou a se lembrar de todas as estórias que ouviu sobre si mesma e as que ela própria havia guardado no coração.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
As aventuras de Morena
Com uma trouxa de roupa na cabeça, os joelhos gastos, as juntas duras, olhou para cima para contar quanto ainda lhe faltava para chegar no topo do morro e alcañçar, finalmente, o seu bairro. A visão daquela escadaria imensa, que aprecia não ter fim, lhe desanimou e ela preferiu seguir cabisbaixa. Não havia sentindo em parar. Para onde quer que olhasse só via escada, lixo e céu azul. Seu bico de papagaio havia paralisado seu quadril e cada passo lhe custava um esforço enorme. Mas resolveu seguir, não era isso que fazia há cinquenta anos, seguia a vida? Fechou os olhos por um momento e as lembranças dos tempos em que a vida a seguiam lhe encharcaram as faces de lágrimas. Já não podia mais aguentar e sentou um pouco para descansar. E começou a se lembrar de todas as estórias que ouviu sobre si mesma e as que ela própria havia guardado no coração.
terça-feira, 26 de julho de 2011
Paz e Amor

segunda-feira, 11 de julho de 2011
Amor louco

terça-feira, 28 de junho de 2011
Apartamentos e Sapatos


quarta-feira, 9 de março de 2011
Muitos Carnavais

Ah, o carnaval! Já fui tantas vezes, já pulei atrás de muitos trios, já tomei muita cerveja, cheirei lança – foi inclusive no carnaval que ela me foi apresentada, num murro na minha boca, seguido de um beijo e uma ordem, aspire. Aí, veio uma sirene muito alta que saía de dentro da minha cabeça, uma tontura, mesclada com euforia, a música, qualquer fosse, parecia maravilhosa, novo beijo e mais carnaval. E carnaval, para mim, tinha que ser com muita cerveja, assim, dopada, não via as brigas, os roubos, as milhares de infrações de leis de direitos humanos, cometidos por todos os camarotes, blocos, cidadãos mais abastados, pelos menos abastados, pela polícia... Embebida em álcool, a festa parecia supimpa! As milhares de mãos, que insistiam em me apalpar, puxar, roubar beijo, me derrubar no chão, me imobilizar, me forçar um beijo e me dar a mão para levantar, tudo bobagem, eu não sentia nada! Não que eu fosse um sucesso no carnaval, mas que sempre estava tão bêbada que, notoriamente, parecia ser um alvo fácil. Sóbria mesmo, só babei nos filhos de Gandhi, quando o bloco ainda era composto apenas por negros altos, fortes, lindos, que espirravam água de cheiro no nosso corpo, protegiam as desamparadas e se despediam com um beijo mais terno que sexual. Memórias boas também, quando Carlinhos Brown inventou um corre todo mundo para trás e depois corre todo mundo para frente, quando vi uma senhora bem larga, cair no chão e derramar milhares de latinhas no chão, pedi a Deus para conseguir ajudá-la, mas quando vi, uma roda enorme de pipoqueiros já havia sido aberta para resgatar todas as latinhas da senhora e devolvê-las para o seu gigantesco saco. O mesmo quando perdi e achei minha lente de contato! (quer dizer, acharam. Eu, embriagada, lógico, coloquei a lente na boca e de lá no olho, ganhei uma infecção ocular pós carnaval, mas não fiquei gripada risos). Me apaixonei, pelo menos três vezes durante o carnaval, mas nunca surgiram namoros destes amores carnavalescos, só ficadas mais cumpridas. Mas, hoje, ouvindo e vendo as pessoas passando bem embaixo da minha janela, o cheiro de mijo mesclado com cerveja e suór, o enorme montante de gente que passa com camisas de blocos, camarotes, sem camisa, às vezes, até sem roupa! me dão um desânimo. Acho que nem mesmo bebássa me divertiria. Talvez, tome coragem e vá na rua, pipocar. Mas, por enquanto, vou ficando alcoolizada em casa mesmo e indo dormir. Descobri a fórmula perfeita para dormir bem, com o barulho infernal que insiste em invadir minha casa. Duas latas de cerveja e aí, nossa, durmo tão bem, que esqueço tudo, não escuto nada. Então, escrevendo isto, meu rosto esboça um sorriso. Foram muitas as minhas mudanças ao longo dos carnavais (foram muitas, também, as mudanças do carnaval, na forma, na quantidade de gente etc), mas, quando fico em Salvador, morando na Barra, a única coisa que não parece ter mudado, é o fato de passar todos os carnavais, bebássa! (gargalhadas). Saudades imensas de todos aqueles que participaram comigo das milhares de aventuras carnavalescas, Malara, Violet, Iara, Raquel, Mylena, Majó, Dan, Anaê, e tantos outros, memórias de outros tempos, outra vida. E daqueles, que com certeza, dividiram um cigarro comigo, neste momento casulo como Cris e Lua. A todos, vai meu desejo sincero de bom carnaval. Mas, agora, tenho que ir, estão batendo na minha porta. Mais uma vez, lá vou eu, pipocar. Só pra garantir, vou pegar uma piriguete* kkkkkkkk
* Piriguete, nome dado as mulheres mais fáceis, que todo mundo passa a mão. Os baianos, eita povo criativo, não só lançaram este nome no mercado de relacionamentos, como batizaram a cerveja Skol de 250 ml, pequeninha e mais barata com o mesmo nome. Segundo descobri, todo mundo prefere a piriguete, é chegar, passar a mão e levar, e ainda garantir pagar menos por isso!
domingo, 5 de dezembro de 2010
O Caminho das Flores

Laura era uma mulher como poucas. Aos sessenta anos já havia passado por todas as agruras da vida sem desmoronar. Vira seu pai ir para o céu ainda menina. Aos cinqüenta, foi a vez de sua mãe ir embora e aos cinqüenta e cinco, seu marido entrara em colapso nervoso, ruindo diante da perda de seus pais, num acidente de carro. Viu-se, então, na perspectiva de cuidadora, dedicando-se ao esposo quase que todos os momentos de seu dia. Mas, Laura, insatisfeita com a possibilidade de passar o resto da vida sem ser reconhecida, resolveu investir em si mesma. Era jovem, bonita, inteligente e saudável. Foi com tamanha determinação agarrar o tão sonhado reconhecimento, que cinco anos mais tarde ele chegou. Tornara-se gerente geral de sua empresa. Trabalhava dez horas por dia, e, quando chegava em casa cuidava do marido, da casa, e ainda, quando tinha tempo, dava assistência a filha. Sentia-se no topo do mundo, ela havia logrado ser boa em todos os aspectos de sua vida.
Quanto mais problemas tinha a resolver, mais se sentia energizada. E passou a acordar às quatro da manhã para continuar freqüentando a academia e, com isto, ter mais energia para enfrentar a tudo e a todos. Mas depois de um ano de maratonas, seu comportamento fora alterado. O sucesso viera acompanhado de um imprevisível estresse. Logo ela, tão resistente, ficara estressada! – pensava ela, relutante. Mas seus gritos, cada vez mais freqüentes, a denunciavam. Negou o cansaço, o estresse, as gripes; negou toda sorte de dor ou desconforto até onde pode, até que, permitiu-se uma folga e tirou férias. Vinte dias, labutava ela, seriam mais que suficientes para descansar e se recuperar. O seu próprio estresse havia se tornado desconfortável, até para ela mesma.
Agendou sua própria viagem, arrumou suas malas e a do marido. E quando fez a lista de contas a pagar para a filha sentiu algo que não havia se permitido sentir nos últimos dez anos. Sentiu cansaço. Resolveu deitar um pouco, quem sabe, vinte minutos de sono, façam-no desaparecer. Mas, vinte minutos de sono, tornaram-se vinte horas de sono. Seu esposo, preocupado, e um pouco desorientado, pela falta de seus medicamentos, a acordou. Ela, impaciente, levantou-se, mas viu o mundo girar e tombou na cama, novamente. Sua respiração estava abreviada e sentia-se como se estivesse se afogando sobre a cama. O marido, desesperado, ligou para sua filha, que chegou às pressas para levar a mãe na emergência.
Laura relutou até onde pode, mas sua relutância foi tão breve, quanto sua respiração. Passou a tarde sentada na maca, aguardando os médicos plantonistas, que não consideraram seu caso grave. Mas no final da tarde, não conseguia mais manter-se sentada, e deitou. O médico chegou minutos mais tarde para informar o diagnóstico. Ela sentou-se, novamente, pronta para tomar o medicamento e voltar para casa, viajaria no dia seguinte, por que aquele infeliz a segurava ali? Entretanto, o médico não trouxe nenhum remédio, trouxe, sim, más notícias, que pareciam bombas a explodir na cabeça de Laura. A senhora tem um derrame pleural secundário a uma pneumonia não tratada (PUM), terá que ficar internada (PUM), na UTI (PUM). Ela tentou falar, mas não lhe restava muito ar, conteve o choro. Havia perdido sua viagem de descanso, continuaria estressada.
Foi só quando viu seu marido e sua filha se distanciarem, que se deu conta do ocorrido. Ela, Laura Magalhães, taurina, sessenta anos, que sempre fez atividade física, que sempre teve uma saúde de ferro, que nunca ficou de cama, estava sendo internada por tempo indeterminado. Começou a rezar quando ouviu o barulho ensurdecedor da UTI com seus respiradores, seus gemidos de convalescentes, médicos, enfermeiras, técnicos. Sua primeira noite no hospital lhe pareceu um estupro. Os sons lhe invadiam e não havia maneira de contê-los. Ao seu lado, um paciente delirante falava para quem quisesse ouvir suas senhas, seus códigos de banco, seus montantes de dinheiro, seu testamento. Quando Laura viu a filha, só teve um pensamento, dizer-lhe que era tudo um grande engano, que ela era mais saudável que a própria cria, que ela demandava que a tirasse dali, imediatamente. Porém, quando tentou falar, nem ela mesma ouviu sua voz. E adormeceu.
A partir dali, sua vida parecia ter se transformado no inferno de Dante. De hora em hora, entravam pessoas, que olhavam a placa afixada na parede que dizia:
LAURA MAGALHÃES
60 anos
Alérgica à AS
Pigarreavam e forçavam um sorriso, para lhe perguntar como estava, se havia dormido, como se sentia. Laura tinha vontade de gritar as respostas àquelas perguntas tontas. Claro que não estava bem, afinal de contas estava num hospital, internada em uma UTI, como podia estar bem? Claro que não conseguia dormir, o paciente ao lado não calava a boca e os funcionários não paravam de entrar em seu leito! E como se sentia frágil. A fragilidade não lhe era bem vinda, sempre se esforçara para não demonstrar qualquer tipo de fragilidade, mas agora estava ali, com a fragilidade que escondera por anos, totalmente, a mostra. Como resposta, Laura apenas sorria e acenava com a cabeça. Ninguém parecia se importar.
No dia seguinte, sentia-se mais ativa, mas os médicos pareciam não concordar com ela. Passava o tempo inteiro esperando ver os rostos da filha e do esposo. Todavia, já tinha certeza de que teria que passar algum tempo ali. Começou a rezar para sair dali logo. Perguntou pelo paciente ao lado, as auxiliares lhe disseram que fora a óbito. Seu coração disparou. Havia chegado seu momento de ir? Não! Não, Não! Gritava a voz dentro de sua cabeça. E começou a rever tudo que teria que passar para filha caso algo lhe ocorresse. E continha as lágrimas de tristeza. Entrou no lugar do paciente que foi a óbito, um outro, que passou a noite inteira chamando uma tal de Maria e mandando lembranças para Josy e Cristina, as filhas? Até que, depois do que pareceu uma eternidade para Laura, ele se calou. Mas o silêncio dele acendeu o barulho das máquinas e Laura pode ouvir toda a correria dos médicos para reanimá-lo. Mas, já era tarde. Laura pode ouvir o som do “pin”, que, até então, só ouvira em séries médicas.
Laura se sentia no corredor da morte. Juntou todas as suas forças para orar e pedir clemência a Deus. O que quer que tivesse feito de tão ruim, já estava pago! Ouviu do médico que seu derrame havia aumentado. Não deu muita bola até ver a cara da filha. Pressentiu, então, que algo pior estava por vir. E veio. Colocaram nela uma máscara dizendo que, com ela, respiraria melhor. Mas quem quer que tenha inventado esta máscara, não entedia lhufas do conceito “melhor”. A máscara parecia um instrumento de tortura. Sentia que afogava a cada vez que inspirava, logo ela, que sempre teve medo de mar e de morrer afogada, agora, morria. Passou o dia inteiro se afogando e só não enlouqueceu, porque algo dentro dela, lhe dizia, com raiva, que quando saísse dali iria ser feliz. Rezou o dia inteiro para que aquilo fosse verdade, enquanto se afogava na máscara. Quando estava a ponto de perder totalmente as forças e a lucidez, sua filha intercedeu e os médicos concordaram em suspender seu sofrimento.
Se recusou a estender suas dores no hospital e decidiu que aquele era o ponto final de seu sofrimento. Mas teve os pensamentos interrompidos. Era hora da coleta de sangue. Fechou os olhos, como que para negar a cena, quando viu um técnico inexperiente lhe furar o braço três vezes, não encontrar sua veia e partir para novas tentativas no outro braço. Seu braços com três perfurações inchou imediatamente, ficou quase do tamanho de sua perna. E como se isto não fosse o suficiente, começaram a lhe furar, além dos braços, a barriga. “Ser feliz, ser feliz, ser feliz...” A frase lhe ecoava na cabeça.
Ao amanhecer do terceiro dia, já não suportava mais a idéia de ter duas mulheres que jamais vira lhe dando banho, lhe esfregando as partes, tendo que anunciar a hora de seus dejetos. Mas, tudo isto pareceu menor, quando viu sua filha sorrir pela primeira vez desde que dera entrada. Respirou fundo, e o sorriso lhe devolveu a gana de agarrar o mundo e ser feliz. Sua fisioterapia evolui para a caminhada. Mas, constatou que seu corpo, tão atlético havia perdido massa e a marcha lhe saía trôpega, insegura. Logo ela, meu Deus, tão segura, que sempre caminhara com passos firmes, largos e rápidos, não conseguia sequer manter a postura ou largar o braço forte do profissional. Foi durante a caminhada que criou seu segundo mantra, sairia dali logo e, quando voltasse, tudo iria mudar!
No quarto dia foi transferida para a semi UTI. O local era praticamente o mesmo e Laura tinha a sensação que havia mudado apenas para um espaço mais frio e mais apertado. O que tentavam fazer com ela naquele hospital? Deixá-la louca, ou matá-la de frio? A semi UTI era tão fria, que tornava sua respiração difícil. Parecia que o ar congelava antes de poder entrar em suas narinas. Pediu ajuda as auxiliares de enfermagem, que lhe trouxeram três cobertores. A assistência não lhe satisfez, se sentia no Pólo Norte, e parecia que todos os que trabalhavam ali haviam congelado junto com o ambiente. A única pessoa receptiva era um auxiliar, que sempre chegava ofertando um sorriso amável e um tratamento caloroso. Os médicos que iam e vinham em seus plantões olhavam para sua ficha, um pouco cansados e temerosos de não se confundir no diagnóstico, davam esperanças a ela de que aquela tortura estava chegando no fim. E, para ela, o fim daquela agonia parecia nunca chegar. A única pessoa negativa e que insistia em mantê-la ali era uma pneumologista que dizia que seu caso era grave e parecia querer acorrentá-la ali. Para ela, era fácil, fria, branca como a dama da neve, ela ia e vinha tranqüilamente no hospital, que aprecia ser sua segunda casa. Para ela o gelo polar, as agulhadas, o barulho das máquinas hospitalares eram sons musicais distantes e torturas necessárias. Claro, aquela sádica idiota não era a paciente! – pensava Laura. Todo torturador adora ver o torturado sofrer, mas ela, Laura Magalhães não seria mais uma de suas vítimas! Desde quando os médicos se tornaram tão perverso?, indagava a convalescente. Então, encheu-se de força e quando ouviu da suposta doutora que tinha de ficar em observação na semi UTI por mais alguns dias, ela replicou autoritária que ali não iria permanecer por nem mais um dia. Ainda reforçou a frase dizendo que se morresse, não a processaria, sequer ao hospital, por ela não poderia lhe causar dano maior do que mantê-la acorrentada ao iglu que estava. A médica, adivinhando a dor de cabeça que teria se a mantivesse ali cedeu aos desejos de Laura. Sua alta para o quarto foi concedida no dia seguinte.
Na tarde do sexto dia Laura foi levada para o quarto. Tamanha foi sua surpresa ao chegar ao quarto e se deparar com duas mulheres, uma na cama, a outra na poltrona. Não ficaria sozinha?! Não tinha direito a isto?! Não havia pago por isto?! Mas, Laura estava fraca demais para protestar, havia usado toda sua reserva de energia para confrontar a pneumologista. Buscou o abrigo de olhos conhecidos e encontrou os olhos do marido. Seus olhos condescendentes observavam o esposo. Como viveria ele sem ela? Será que ele conseguiria viver sem ela? A filha, com certeza, mas seu esposo. O que faria? Ligou para sua filha, que, para variar levou muito tempo para chegar. “Que ótimo” – pensou, ainda terei que conviver com mais estranhos! A paciente da cama ao lado parecia estar na casa dos oitenta e sua acompanhante muito mais jovem, parecia ser sua filha. Quando sua filha chegou pediu para que ela lhe auxiliasse no banho, mas este acabou sendo um desastre. A filha não sabia manusear o chuveiro e água acabou caindo gelada em todo seu corpo, nos curativos, nos drenos e Laura sentiu-se desmoronar e se partir em gotas. E com os olhos marejados, não disse nada, só continuou o seu banho, ouvindo os lamentos trêmulos da filha.
Quando saiu do banho, encarou as duas figuras, que lhe olhavam detidamente. Ah! Pelo menos são apenas duas e não há mais o barulho das máquinas. E deitou em sua cama sem dar atenção ou se incomodar com as outras. Sua filha não quis dormir no hospital naquela noite e seu marido insistiu em permanecer ali, não queria sair do seu lado. A senhora, Dona Júlia ficou encantada com o homem, e diante de seus apelos para que seu marido fosse embora, ela só disse: “Amor assim, minha filha, não existe mais! Deixe ele ficar. Só esta noite.”. Laura, tocada, como há tempos não se sentia, acatou o conselho da velha. No decorrer da noite, cada vez que precisava da ajuda de seu esposo, ele entrava em tal ansiedade que, ao invés de ajudá-la, acabava lha atrapalhando. Não queria brigar com o esposo, mas será que ele não percebia que não conseguia ajudá-la e que ela não estava em condições de se ajudar, imagine ajudar ele e ela para fazer todas as coisas. Seu marido insistia em cuidar dela. Mas como podia ele cuidar dela? Ele que sempre fora cuidado, nunca cuidador. Rezou para que a noite passasse logo e que a filha tomasse o lugar do marido. Mas, quanto mais rezava mais o marido a aturdia, até que o esposo caiu da cadeira e ela perdeu o fio que lhe restava de paciência e disse ao marido que era ela quem estava doente e que ele só a atrapalhava. Assim que fechou a boca, viu a dor nos olhos do marido. E fechou os olhos, sem forças. Foi neste momento, que sentiu um calor sobre seus olhos, o calor parecia estar levando as nuvens que embotavam seus pensamentos e sentimentos e ficou ali de olhos fechados. Quando os abriu, viu que a filha da senhora, Iara, havia ajudado seu companheiro a reerguer-se e que ainda mantinha suas mãos sobre sua testa. Iara lhe explicou que era médium, espírita, que ela lhe havia chamado a atenção desde a UTI e que vinha lhe aplicando passes desde lá. Sabia que a encontraria novamente, porque Laura, ela sentia, precisava de seus passes. Laura, pode sentir toda sua proteção e cuidado e lhe agradeceu sem palavras, apenas com seus olhos, do fundo de seu coração. No fim, Iara cuidou de todos.
Foram dois dias dividindo o mesmo quarto e Dona Júlia mostrou-se uma pessoa cheia de garra, muito determinada em viver plenamente, apesar das patologias que sofria nos rins, fígado e, principalmente, coração, aquela, definitivamente era uma mulher que amava demais. Suas conversas simples e cheias de amor, sua visão tão diferente do mundo, tudo nela levava a ternura. E sua filha, Iara, mesmo dormindo numa cadeira reclinável por duas noites, parecia não perder a disposição para o cuidado. Sensitiva, prestativa e atenciosa, quando não havia nada que ela pudesse fazer para acolher Laura, o esposo e Dona Júlia, ela, espírita e médium, aplicava passes em todos. Laura, tocada, decidiu que iria passar o bem adiante e que ela própria ajudaria alguém que ela sabia que precisava.
Após dois dias, o hospital percebeu que havia unido as duas por pura confusão das fichas dos planos de saúde. Com medo de sofrer processos jurídicos, remediou o erro, separando as duas. De incômodo, a princípio, Dona Júlia e Iara, acabaram sendo anjos, figuras divinas, a certeza de sua recuperação voltou forte nela. Laura foi transferida para um quarto maior, que dispunha de um sofá e uma cadeira para maior comodidade dela e do acompanhante. Dona Júlia vinha visitá-la todos os dias. Quando recebeu alta, Laura fez uma oração em agradecimento, mas, uma parte dela ficou muito triste em perder a companhia. Já havia conhecido toda a família de Dona Júlia. Entretanto, apenas Iara e Dona Júlia haviam lhe tocado o coração.
Continuou no quarto da UTI por mais sete dias. Rezava todos os dias para que seu suplício tivesse fim. Já não agüentava mais a comida, a cama, as medicações, a falta de privacidade. Com a partida de Dona Júlia e Iara, percebeu que precisava de cuidados maiores para o banho e outros e contratou uma auxiliar particular, assim poderia dar folga a filha e ao marido, que passavam longas horas no hospital ao seu lado. Só percebeu sua força voltar quando caminhou sem sentir falta de ar, sem ter as pernas bambas. E então, ela se viu renascer. Toda sua força, toda sua determinação pareciam voltar a cada dia, como num conta gotas, aos poucos, com cuidado ela foi ficando mais e mais independente, caminhava todos os dias, por todos os corredores do hospital, sempre se destinando à saída, era este seu foco. No sétimo dia no quarto particular, o pneumologista da UTI que lhe livrara da cirurgia pulmonar enquanto ainda estava na ala de cuidados intensivos, veio visitá-la. Ele, sempre portador de boas notícias, recitava ela, como um mantra pessoal. Mas, não podia deixar de tremer, com a perspectiva de ter de voltar as portas do inferno que era a UTI. Ele olhou atentamente seus exames e depois de um tempo que lhe pareceu interminável lhe deu um veredicto que encheu seus olhos de lágrimas. Ela estava de alta! Alta! Alta! Alta! Ela ouvia a voz do médico se repetir como um eco em sua cabeça.
Saiu do hospital determinada a passar a ajuda que obteve ali com Dona Júlia e Iara adiante. Ligou para Teresa, uma cozinheira, que se tornou sua babá e mais tarde sua amiga, que até hoje lhe visitava com empadas, bolos e pães, seus preferidos. Pagou todas as despesas médicas de Teresa, inclusive os remédios. Para sua surpresa Teresa estava saudável, mais forte que ela! Riu de satisfação. Sua primeira promessa estava cumprida, agora, era para ela. Se deu uma semana para voltar ao trabalho. Cortou os cabelos bem curtos, num corte mais estiloso, diferente de tudo que já havia feito, pintou os cabelos, fez as unhas, doou uma grande parte de seu guarda roupa, comprou roupas novas. Quando voltou ao trabalho diminuiu o ritmo de suas atividades e a quantidade de hora que dedicava a elas. Foi ao cardiologista, nutricionista, pneumologista. Um mês foi o tempo necessário para voltar a academia, para que sua pressão se normalizasse e para que o líquido de seus pulmões que ainda estava extravasado voltasse para seu devido lugar. Ela era uma nova mulher!
Resolveu recomeçar sua vida, voltar aos seus planos de viagem, dedicar-se a sua vida e a si mesma. Havia lhe custado sessenta anos e um passeio de quinze dias no barco de Caronte*, mas havia logrado chegar ao Paraíso. Laura finalmente voltava para seu corpo, Laura voltava para si mesma, voltava para ela. Esta foi sua decisão final e dela, nunca mais, abriu mão.
FIM
*Caronte é o barqueiro que faz a travessia das almas para o Inferno no poema Divina Comédia de Dante Alighieri.
domingo, 31 de outubro de 2010
A Pequena Fábula da Princesa
Era uma vez uma princesa, que vivia num lindo castelo, grande e florido. Para qualquer lado que a princesa olhasse, ela só via natureza. Ela não compreendia muito bem como o castelo funcionava, mas ela sabia que as coisas no castelo funcionavam muito bem. Ela ouvia sua mãe dando as ordens ao longe, mas aquilo não importava, o que a interessava era que no castelo tudo parecia mágico. A princesa tinha amigos, eram outros príncipes e princesas que moravam nos castelos próximos aos seus. E a vida da princesa se resumia a isto. Respeitar os horários das refeições e dos estudos e brincar com seus amigos nos jardins no meio das flores. Até que um dia apareceu no castelo um plebeu, com as vestes esfarrapadas e cabelos desgrenhados. A princesa ficou tão surpresa com aquele estranho, que trazia consigo diferentes cheiros e visões, que resolveu segui-lo, para descobrir que outro mundo era aquele, que não era a vida que corria em seu próprio castelo. Então, depois de tê-lo seguido por dois dias, ela chegou a um vilarejo, era um local jamais sonhado pela princesa e ela, de tão surpresa, de ver o inédito, de tudo ser tão novo, decidiu ficar. A princesa percebeu que fora do seu castelo também havia vida e ela notou que as coisas não funcionavam como em seu castelo. Era uma organização totalmente diferente e, justo por isto, resolveu morar na casa do plebeu. Compreendeu, com certo choque, que a família do plebeu havia se acostumado com a falta. Nunca havia nada na mesa e quando havia comida, as refeições nunca eram servidas nos horários programados. Mas ela continuou a viver com o plebeu, até porque precisava descobrir quais eram as possibilidades dela mesma.
Até que um dia passou um circo na cidade. Ela dançava atrás do caminhão do circo, quando foi convidada a juntar-se a ele, para compor o espetáculo como bailarina. A princesa aceitou o convite, encantada que estava com o Circo. Primeiro resolveu assistir ao show para depois partir com eles. E foi como espectadora que se impressionou com o malabarista. Ele usava duas meninas como malabares e ficava jogando-as para cima, equilibrando as duas em suas mãos. A princesa impressionada questionava-se como era possível manter duas crianças no ar por tanto tempo? Como podiam ficar tanto tempo impedidas de tocar o chão? Como era possível estar sempre as mandando para cima, aos chacoalhos? E, olhando para as meninas, não sabia se riam ou se choravam, tampouco, ninguém ligava. Os risos e as lágrimas se misturavam. E a princesa nunca sabia se as crianças eram felizes ou miseráveis.
A princesa partiu com o circo e foi dividir o trailler com o malabarista. E lá, ela viu que o malabarista pendurava as crianças em fios e, assim, seus pés nunca tocavam a terra. Percebeu também que o chacoalhar que as crianças viviam nunca passava, porque ficavam sempre balançando de acordo com os desníveis das estradas de cada uma das cidades do interior por onde o circo passava. E a princesa, chocada, perguntava-se como podiam as crianças estar sempre balançando de um lado para o outro? Como podiam nunca tocar o chão?
Então, um dia, a princesa viu uma discussão entre o malabarista e um dragão. O dragão era a parte do show, a parte mais emocionante dele, pois o dragão cuspia fogo na platéia, que corria aos gritos de emoção. Mas na discussão entre o malabarista e o dragão, ele, enfurecido, soltava fogo pelas ventas e parecia cada vez mais irritado e o fogo ora queimava as meninas, ora o malabarista, que ficava jogando-as para cima, para tentar livrar-lhes do fogo direto. Mas, no fundo, o malabarista parecia não ligar para o fogo, assim como as crianças, elas pareciam já estar acostumadas a serem queimadas.
Quando voltaram para o trailler, a princesa piedosa resolveu colocar panos frios nos machucados e curativos nas queimaduras. Foi aí que a princesa percebeu que as meninas tinham os pés e as mãos queimadas e, por isto, não tocavam o chão. A cada noite, de semana em semana, a discussão se repetia e as queimaduras se proliferavam. Por isto jogar as crianças para cima aliviava a dor das queimaduras. Assim, a princesa compadecida, passou a fazer mais curativos e também sapatos e luvas para cobrir os pés e as mãos das crianças queimados. Mas o malabarista os retirava assim que as via. Ele dizia que se as crianças pudessem tocar o chão, elas não mais poderiam estar flutuando no ar e, com isto, não haveria mais espetáculo para ele. Então, os esforços da princesa eram em vão. Cada um dos curativos, dos calçados, luvas ou roupas que confeccionava para as crianças eram jogados fora, ou às vezes, eram queimados pelo dragão. E, chocada, indagou-se como o malabarista podia deixar as crianças serem constantemente queimadas? Como podia se deixar queimar?
A princesa descobriu que as crianças eram filhas do dragão com o malabarista, que um dia acreditou que o dragão era uma princesa, que fora enfeitiçada por uma bruxa a permanecer presa no corpo daquela criatura. Acreditou que seu beijo quebraria o feitiço. Mas aquilo não aconteceu. O que ocorreu foi que o dragão foi ficando cada vez maior e o malabarista foi ficando e sentindo-se cada vez menor. Mas o espetáculo precisava continuar. Entretanto, a princesa já não tinha mais inspiração para dançar e encantar a platéia. Assim foi que ela decidiu abandonar o circo e retornar para seu castelo. Já havia aprendido muito mais do que jamais sonhara quando partiu do castelo em busca do novo. Voltou para o local onde tudo parecia mágico e seguro.
Hoje dizem que a princesa desde que retornou, jamais voltou a deixar o castelo e que seu refúgio tornou-se o jardim, onde confecciona roupas para as diversas crianças perdidas, abandonadas ou esquecidas de todos os vilarejos das redondezas, sem se importar se elas serão usadas ou jogadas fora.
FIM